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Um texto desconhecido de Waly Salomão

Atualizado: 10 de dez. de 2025

Esta edição da Livros Imperecíveis reúne dois textos: abrimos com um inédito de Waly Salomão e seguimos com Matinas Suzuki Jr. Boa leitura!


Da série dos poemas visuais Babilaques: alguns cristais crivados, Waly Salomão, foto de Marta Braga, Rio, 1977. Reprodução Matinas Suzuki Jr.
Da série dos poemas visuais Babilaques: alguns cristais crivados, Waly Salomão, foto de Marta Braga, Rio, 1977. Reprodução Matinas Suzuki Jr.

Cavaleiro solitário

Waly Salomão

Escrevi grande parte do meu livro Me segura qu’eu vou dar um troço perambulando nas quebradas e pernoitando nos barracos do morro de São Carlos e morro da Mineira. Conheço bem o Morro de São Carlos, enclave quilombola em forma de ferradura do centro do Rio de Janeiro, refúgio de negro fugitivo do tempo da escravidão e de branco pobre ou remediado sem outro lugar para morar. Colado ao Estácio que gerou a primeira escola de samba, perto da Praça Onze e do fulcro fecundo de “Tia” Ciata, o morro de São Carlos pariu Ângela Maria, Luiz Melodia e Gonzaguinha. Sob as bençãos celestiais de Ismael Silva e Bide.


Gonzaguinha foi um moleque esperto crescido pulando carniça nas travessuras das ruas e vielas do morro de São Carlos. Graveto áspero, enxuto de carnes, desenho físico oposto ao pai, filho bastardo do grande Luiz Gonzaga, o Lua da cara gorda e redonda.


Gonzaguinha soube reter uma qualidade a vida inteira: a condição de homem aprendiz. Bardo-bastardo, aprendiz de viver. Penar, lutar, labutar, passar dificuldades até lavar a alma do Brasil. Por isso suas melhores canções ultrapassam a situação de meras canções e se situam como genuínas lições de vida. Suas canções já nasciam da sua cachola com a forma eficaz de arranjos para assobios. Dentre os nossos compositores, ele é um dos maiores fornecedores de temas para a sociedade dos assobiadores anônimos em geral.


E não se sabe mais se veio dele ou do inconsciente coletivo certos achados ou melhor dizendo acertos como por exemplo EXPLODE CORAÇÃO. Foi Gonzaguinha quem implantou no seio do povo ou Gonzaguinha recebeu a expressão prontinha da ponta-da-língua do povo? Pouco importa. Na hora H da euforia não sobra espaço para outra expressão seja no coletivo-Maracanã seja nos estados subjetivos-sentimentais.


Para ser assim é preciso ser íntimo do povo e essa intimidade vem da formação da alma do artista e não como penduricalho da ideologia populista. Pivete-travestido de cantor-compositor, Gonzaguinha, inventor de slogans que se adequam como luvas bem ajustadas às mãos. Não é pouca proeza poder ser lembrado em situações-limites, em momentos fundamentais. E Gonzaguinha consegue.


Muitas das suas letras de homem maduro conservam o verdor primário do participante de festivais universitários. Verdades simples ainda que redundantes. Para viver, o vivente tem que se prover de um estoque grande de fé. Ou nem que seja um grão de esperança. Daí resulta algumas posições extraordinárias do “Little Gonzaga” quando coloca todas as suas fichas sobre a mesa:


“EU ACREDITO É NA RAPAZIADA!!!”


Ou o postulado-básico do libertarismo revolucionário que rompe com os cabaços do puritanismo:

“VIVER E NÃO TER A VERGONHA DE SER FELIZ”


Aliás esses versos aparecem numa música que surge no bojo de uma onda arquetípica tão forte que parece não ter sido inventada por uma pessoa particular específica, e é exatamente o desfazimento tão orgânico da autoria que faz com que esta canção seja convocada tantas vezes para exprimir nosso espanto e euforia de viver.


Cavaleiro solitário, cavaleiro da esperança, um Quixote-Pixote carioca. Gonzaguinha soube manter o peito aberto para deixar entrar a contraditória exuberância de vida. E se a vida infelizmente não tem replay e cortou de forma tão abrupta a presença dele entre os vivos, então vamos fazer a louvação de iniciativas como a deste disco de Gonzaguinha ao vivo.


***


A casa matinas encontrou em seus arquivos este texto desconhecido e (como sempre) surpreendente de Waly Salomão sobre Gonzaguinha. Ele vem bem a calhar na época em que se comemoram os 80 anos do cantor e compositor. Segundo Marta Braga, ele foi escrito em 1990 a pedido de André Midani — o bruxo do mercado fonográfico brasileiro; Midani viabilizou, em 1974, a publicação da revista Navilouca, criada por Waly e Torquato Neto três anos antes, quebrando tudo na geleia geral da poesia brasileira — por ocasião do lançamento do CD póstumo de Gonzaguinha, Cavaleiro solitário ao vivo. Desconhece-se a que se destinava, na ocasião. Não o trazer a público agora, uma vez localizado, seria sonegar uma restauradora visão de Gonzaguinha, para quem o esnobismo intelectual dedicava piadas e soslaios de mépris (o horror a esse preconceito foi uma das motivações que levaram Waly a escrever o texto, conforme anotou, à mão, na margem).


Sucata


Esta publicação é também uma maneira de dizer sim a Waly Salomão.


Seu livro mais que imperecível, Me segura qu’eu vou dar um troço, que ele estava escrevendo quando cruzou com Gonzaguinha no morro de São Carlos (foi escrito também nos dias em que passou aprisionado no Carandiru, em São Paulo, tempo de barra pesadíssima na capital paulista, por porte de uma bagana de fumo; ele nunca se vitimizou — “a vítima é o objeto nas mãos do outro” diz Antônio Cícero no seu grande ensaio sobre a poesia de WS — pela violência dessa prisão, ao contrário, afirmava que ali encontrara a libertação da escrita) foi editado pela José Álvaro Editor (“a primeira editora pirata, underground [expressão de época] ou que outro nome se lhe dá”, anotou Roberto Moura, na sua coluna do Correio da Manhã; não dá para falar sobre os livros imperecíveis sem falar também de suas editoras) e lançado em 21 de agosto de 1972, em noite de happening, outra expressão de época, na boate que entraria para a mitologia tropicalista: a Sucata (onde, em 1969, como afirma Caetano Veloso em Verdade tropical, aconteceu a talvez “mais bem sucedida peça do tropicalismo”, o show que ele fez na casa noturna com Gilberto Gil e os Mutantes, e que tinha como cenário o estandarte Seja marginal, seja herói, de Hélio Oiticica; de certa maneira, foi este show que entornou o caldo da caretice e da repressão em torno de Gil e Caetano, levando-os a prisão e ao exílio).


Na noite do lançamento do Me segura qu’eu vou dar um troço, Jorge Mautner se apresentou, assim como Jards Macalé (que já havia gravado o seu antológico primeiro LP com Lanny Gordin e Tutty Moreno), Luiz Melodia, em seus dias de artista enquanto jovem, e Gal Costa, a musa resplandecente e absoluta do período por conta do show Fa-tal, dirigido, aliás, por Waly; teve ainda filme de Neville de Almeida, um documentário rodado no local pelo artista Carlos Vergara e pelo editor Sebastião Lacerda, um super 8 do cineasta e fotógrafo Ivan Cardoso. É deste a foto da capa do livro (uma das mais marcantes de toda história das fotos de capas de livro no Brasil), feita na Praça do Lido, em Copacabana, com Waly, Zé Simão e a menina Rubia, do morro de São Carlos. Simão (tomando uma Coca-cola?) usava uma camisa que sobrara do figurino do show Fa-tal, de Gal. (Como se vê, cada livro imperecível merecia a sua própria biografia).


Capa de Me segura qu'eu vou dar um troço, com umas das fotos mais marcantes de capas de livro no Brasil, autoria de Ivan Cardoso.
Capa de Me segura qu'eu vou dar um troço, com umas das fotos mais marcantes de capas de livro no Brasil, autoria de Ivan Cardoso.

Alto Leblon


Waly colocava a literatura como um dos fundamentos, uma das exigências da vida, nos múltiplos sentidos que isso possa ter. Viver era se impacientar com o ramerrame (“o cotidiano não me alimenta”): não fico parado, não fico calado, não fico quieto. Era preciso exclamar, como sugeria Mário de Andrade, no ônibus ou no táxi, no cafezinho da esquina, numa subida ao Alto Leblon, na conversa fiada de telefone. Mas, isso tudo que trazia a poesia para o dia, ainda não era a poesia, “a menos culpada das ocupações”: poesia era labuta (“é um trabalho intenso”), era remoer o repertório dos outros poetas (“capacidade de ler diversas tradições”), era identificar o voo da palavra mais certa entreouvida na calçada, era imensa angústia de escolhas e descartes lexográficos.


Antônio Cícero (que também faria 80 anos neste outubro rosa, o poeta que escreveu a própria partida com dignidade do mais genuíno humanismo), seu interlocutor maior, acertou na mosca quando escreveu o ensaio A falange de máscaras de Waly Salomão, tirando-o de uma certa carnavalização e colocando-o no plano da dramatização, da teatralização da poesia. A oralidade, a sonoridade, a voz (não é à toa que ele era o letrista que era) são essenciais na sua poética; em seu endereço no Instagram pode-se ter uma ideia da volúpia com que ele falava (e gestualizava) seus versos. (Era comum os amigos serem acordados de madrugada pelo telefone tocando: quando atendiam, ele, sem dizer alô ou bom dia, entrava direto na leitura do poema ou texto que estivesse escrevendo).


“Eu não partilho desse culto da transparência. Porque é mascarado que você vai adiante. O culto da transparência para mim é o culto da banalidade. (...) Eu partilho do discurso propositadamente a favor da opacidade”. Quem ousaria dizer isso hoje? Waly não condescendia. Com isso, fez todo mundo a seu redor abrir o olho e dar um passo à frente. Era um tigre da ira contra os camelos da cultura, na tradução do aforismo de Bill Blake feita pelo Alberto Marsicano. Waly Salomão faz muita falta para todos que o conheceram. E para os que não o conheceram, ou não o conhecem, também.


Dica do editorial


Expediente: Livros Imperecíveis, a newsletter da casa matinas. Setembro, primavera de 2025. 9ª edição. Escrito por Matinas Suzuki Jr., editado por Luiza Nobre, diagramado por Amanda Piva

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