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A prisão de Maria Werneck e as “jovens turcas” de 1935

Imagem antiga em preto e branco da cidade do Rio de Janeiro


Este 19 de dezembro marca os 90 anos da prisão da advogada Maria Moraes Werneck de Castro. Detida na Caixa Econômica, no Rio de Janeiro, onde trabalhava como procuradora, foi levada para a Casa de Detenção. Ali, recordava-se de ter ouvido o estrondo de uma porta de ferro e a voz do chefe dos guardas dizer ironicamente: “acompanhe-a ao seu apartamento”. O apartamento era um quarto amplo, com 16 beliches, uma mesa (sem cadeiras), um banheiro. Na verdade, era uma cela — e entraria para a história política brasileira como Sala 4, o primeiro presídio político de mulheres no país.


Maria Werneck não ouviu acusação formal que justificasse a privação de liberdade. Sua prisão causou um certo diz-que-diz, pois era filha do deputado federal por São Paulo, Justo de Moraes, também advogado, assim como o marido dela, Luís, irmão de um dos mais conhecidos jornalistas na imprensa carioca do século XX, Moacir Werneck de Castro — redator-chefe da Última Hora e autor do livro imperecível sobre o período em que o paulista Mário de Andrade viveu no Rio de Janeiro (Mário de Andrade: exílio no Rio, editora Autêntica). Eles descendiam de famílias ilustres do Império e eram primos de Carlos (Frederico Werneck) de Lacerda.


Maria Werneck enveredou-se pela construção do caminho novo da participação ativa das mulheres na vida pública, na década que inaugura o Brasil urbano moderno, os anos 1930 (num outro registro, note-se de passagem, que o Modernismo de 30, Graciliano à frente, ganha cada vez mais prestígio nos estudos de literatura brasileira). Pouco lembradas, Maria e a sua geração de companheiras brilhantes, inovadoras, audaciosas e libertárias — segundo a historiadora Livia de Azevedo Silveira Rangel, foram chamadas na imprensa da época de “jovens turcas”, em alusão à “revolução dos jovens turcos”, movimento reformista que ocorreu no Império Otomano no início do século XX — compuseram um ambiente político, social, simbólico e comportamental mais complexo, mais rico e mais cheio de contradições do que se costuma ver quando se fala sobre os anos 1930.



União feminina

Não falta quem diga que o movimento da Aliança Nacional Libertadora (ANL), cujo primeiro manifesto é de janeiro de 1935, foi a maior frente ampla civil que o país já teve (outros argumentam que foi o movimento pelas Diretas Já, meio século depois, guardadas as proporções do tamanho da população do país nas duas datas). A Aliança, de caráter manifestadamente antifascista e anti-integralista, e o nonagenário Levante Comunista, que se seguiu a ela, são analisados hoje em dia mais pela imensa força de reação que provocaram, pois tiveram pouca efetividade prática: o recrudescimento da repressão política e o fortalecimento da centralização do poder de Getúlio Vargas, num crescendo que chegou ao Estado Novo, em 1937.


Agora neste final de 2025, a rememoração na imprensa e nas mídias sociais dos 90 anos desse curto, porém fértil, período de agitação política, deu pouca atenção à participação das mulheres naqueles acontecimentos (embora, curiosamente, na época, os jornais tenham noticiado o movimento das mulheres, mesmo que motivados pela curiosidade do exotismo). A década de 1930 é decisiva na atuação institucional e política feminina no país. Contemporânea e aliada da ANL, mas autônoma, é a fundação, em maio de 1935, da União Feminina do Brasil (UFB), que tinha sede no edifício do Jornal do Commercio, na avenida Rio Branco, no centro do Rio. Seu manifesto é assinado por 25 mulheres notáveis; além da luta contra o integralismo, o fascismo e os “inimigos do povo”, ele fala na igualdade de condições de trabalho com os homens e que a UFB não se filiaria a partidos, mas defenderia “em seu programa direitos econômicos, sociais e políticos da mulher”.


Apesar da vida efêmera (tinha apenas dois meses quando extinta pelo governo Vargas) a organização das mulheres, segundo a historiadora Paula Elise Ferreira Soares, teve núcleos “consolidados em outros estados da federação, caso da Bahia, do Rio Grande do Norte, de Minas Gerais, de Pernambuco, e existe indício de mobilização de membros da UFB para a implantação de seções em Manaus. Além disso, em apenas dois meses de sua atuação legal foram criadas, pelo menos, 18 Uniões Femininas no estado do Rio de Janeiro, muitas delas espalhadas pelos bairros da capital federal”. Essa mobilização indica que havia uma inquietação geral das mulheres pelo país na década de 1930.



Bilhete

Maria Werneck seria a 1ª Secretária na diretoria da União Feminina do Brasil e sua representante na Aliança Nacional Libertadora. Ela e o marido Luís prestavam assistência jurídica pro bono às mulheres que eram integrantes da União; na pesquisa que a UFB fez no setor feminino da Casa de Detenção, para conhecer a realidade da mulher prisioneira no país, ela buscou “informações sobre os processos, as circunstâncias em que os crimes se deram e as possibilidades de elaborar justificativas ou atenuantes que pudessem auxiliar as presidiárias”, como relata Paula Elise Ferreira Soares.


Os estatutos da União foram escritos por Eneida de Moraes que, em 1958, viria ser a autora de um livro imperecível sobre a história do carnaval carioca. Um bilhete dela (que era militante comunista) para Maria Werneck teria sido o pretexto, baseado na Lei Monstro (a Lei de Segurança Nacional, de abril de 1935), da polícia política para encarcerar a advogada, uma das primeiras a entrar e uma das últimas a sair da Sala 4. Eneida, com sua risada contagiante e sua voz potente, era a locutora da Rádio Liberdade, criada pelas prisioneiras e prisioneiros políticos na Casa de Detenção.



Greve de natalidade

Numa reunião da UFB, com cerca de 40 mulheres, surge uma proposta polêmica para acabar com a guerra que começava na Europa: uma greve de natalidade, com as mulheres recusando-se a gerar filhos que iriam servir de carne de canhão. A autora da proposta foi a rebelde e interessantíssima Maria Lacerda de Moura, que havia proposto, já em 1921, uma disciplina de “história das mulheres”. Ela traria para a pauta das lutas políticas das mulheres as questões de sexualidade. Educadora e ativista, como disse Iracélli da Cruz Alves, Maria Lacerda de Moura “escreveu uma quantidade significativa de livros, artigos e folhetos em que denunciava as múltiplas formas de dominação burguesa, da opressão masculina e da exploração capitalista do trabalho.”


Outras signatárias do manifesto da UFB:


A incansável atriz Itália Fausta (nascida Faustina Polloni; uma peça que usava o seu nome artístico, Quem tem medo de Itália Fausta?, de 1979, com Miguel Magno e Ricardo de Almeida, parodiando o título da peça Quem tem medo de Virginia Woolf? de Edward Albee, é considerada o momento inaugural do Teatro Besteirol, de grande sucesso a partir da década de 1980), que foi quadro do Partido Comunista do Brasil; ela falou sobre as humilhações pelas quais passava uma mulher de teatro no país, em um dos eventos culturais que a UFB promovia, em julho de 1935;


A escritora e ativista Lídia Besouchet que, como educadora, participou, em Vitória (ES), da proposta experimental da Escola Activa; no Rio, integrou a ANL e a UFB; mais tarde, iria se aproximar do trotskismo (passando a ser duplamente perseguida pela direita e pela esquerda, pela polícia de Vargas e pelo Partido Comunista). Exilada, escreveu livros de história e romances, além de trabalhar como tradutora na Argentina; seu irmão mais novo, Alberto, foi um dos brasileiros a lutar na Guerra Civil espanhola e, por ser trotskista, teria sido fuzilado por agentes de Stalin infiltrados na Espanha;


A professora Armanda Álvaro Alberto, que se tornou a presidenta da UFB e que havia fundado a Escola Proletária de Miriti, em Duque de Caxias (RJ);


A educadora Laudímia Trotta, que à época fazia parte da equipe de Anísio Teixeira;


A paraibana Leonila Felix, que participara do brevíssimo governo popular que tomou conta de Natal, em novembro de 1935.


E muitas outras que as dimensões dessa carta de notícias não permitem enumerar.



Corrente contínua

Além delas, não se pode esquecer que, em São Paulo, Patrícia Galvão, Pagu, militava na política, no jornalismo e na literatura (seu Parque Industrial é de 1932; Pagu ficaria presa na Sala 4 em 1938, depois que as “jovens turcas” foram libertadas pela “macedada”, no ano anterior); e não se pode esquecer de outras mulheres notáveis, mencionadas na Livros imperecíveis #13, como Nise da Silveira, Olga Benario, Elise Ewert, Eugênia Álvaro Moreira, Noêmia Brandão e Haydée Nicolussi, que compunham um amplo espectro de mulheres que também davam sangue, suor e lágrimas nas suas profissões, no combate aos preconceitos, na conscientização social, na mudança de valores, na luta contra a barbárie do fascismo.


Esta carta de notícias cita trechos do trabalho de historiadoras que se dedicam, com notável esforço (falta documentação e a tradição historiográfica se centrou na visão masculina), a pesquisar e reconstituir a vida e a atuação política das mulheres extraordinárias da “geração de 1930”. Mas, perto do grande número dessas mulheres, dos inumeráveis fatos importantes, das narrativas relevantes, das conquistas notáveis, dos talentos demonstrados, da ampliação de horizontes, das ousadias e das perseveranças — e até das derrotas, humilhações e tristezas que fazem parte das marchas e contramarchas da história — ainda se sabe (e fala-se) muito pouco delas.


Há muitas lacunas, episódios, acontecimentos, elucidações, explicações e análises que pedem mais pesquisas, estudos, atenção e divulgação. A história delas é bem maior do que se narrou até agora. Só teremos uma compreensão da real dimensão histórica da década de 1930 no Brasil se conseguirmos entender claramente o papel da mulher naquela década.


Maria Werneck fez sua parte ao romper o silêncio e contar suas memórias da luta feminina no livro Sala 4, lançado pela primeira vez em 1988. Mas ainda resta muito por ser contado. Como diz Margareth Rago, escrever é “inscrever-se, é fazer existir publicamente, o que no caso das mulheres assume uma grande importância, já que o anonimato caracterizou a condição feminina até algumas décadas atrás”. As rebeldes de 1930 moveram a corrente contínua da maior revolução dos últimos 100 anos no país, a revolução permanente das mulheres. Que nenhum red pill poderá mais calar.


Dica do editorial


Capa do livro "Sala 4", de Maria Werneck. Edição da casa matinas


Expediente: Livros Imperecíveis, a newsletter da casa matinas. Dezembro, verão de 2025. 13ª edição. Escrito por Matinas Suzuki Jr., editado por Luiza Nobre, diagramado por Amanda Piva.

 
 
 

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