Sala 4, o primeiro presídio político feminino no Brasil — e que mulheres extraordinárias!
- casamatinas
- 27 de nov. de 2025
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Na noite com chuva fina e intermitente de 23 de setembro de 1936, duas mulheres, duas Marias, estavam em uma ambulância — cercada “por dezenas de policiais armados de metralhadora e protegida de todos os lados por jipes repletos de soldados”, como escreveu Fernando Morais — que deixara a Casa de Detenção, na rua Frei Caneca, na Capital Federal (Rio), em direção ao hospital Gafrée e Guinle, entre a Tijuca e a Praça da Bandeira. Uma das mulheres, na maca da ambulância, estava grávida de sete meses. Em vez de serem acolhidas por enfermeiros do hospital, foram recebidas pelo brutamontes King Kong, que havia sido carcereiro na Casa de Detenção, empunhando uma metralhadora. Ele separou as duas: uma delas foi colocada em camburão (naquele tempo, esse tipo de veículo policial tinha o apelido de “viúva alegre”), que a levaria à Polícia Central; a outra, a grávida, seria deportada no cargueiro La Coruña, rumo à Alemanha de Hitler, aos campos de concentração e à morte em um forno. Ao se despedirem, com os olhos cheios de lágrimas, uma Maria disse à outra, esperançosa: “ — E receba um até breve da mulher brasileira”.
A outra Maria era alemã, teve vários nomes (entre eles, nas fichas policiais, Maria Bergner Prestes), nasceu e ficou para a história como Olga; mas era Maria entre as presidiárias. A outra, carioca, advogada, era Maria Moraes Werneck de Castro. Durante alguns meses, em 1936, as Marias dormiam em camas vizinhas na Sala 4, como ficou sendo conhecida a primeira cela de um presídio político feminino no país, na Casa de Detenção. Um grupo de mulheres extraordinárias — que havia se aproximado para defender os direitos femininos e para enfrentar o fascismo que dominava a Europa e crescia no Brasil, ao flertar com o governo Vargas e ver os integralistas botando as manguinhas das camisas verde-inglês para o ar — ficou detido nesse salão com 16 camas, sem armários e com apenas uma mesa e um banheiro coletivo. Integravam União Feminina do Brasil, a ALN (Aliança Libertadora Nacional), a Aliança Popular por Pão, Terra e Liberdade, e parte delas era filiada ao Partido Comunista do Brasil (PCB), que havia tentado a quartelada do Levante Comunista de 27 de novembro de 1935, causando a escalada das prisões políticas pela polícia varguista. Formavam um conjunto de mulheres profissionalmente ativas, o que não era muito comum à época: nele havia médica, advogada, escritora, jornalista, professora, pintora, historiadora, atriz...
Rosto ardente
Essas mulheres começaram a ser presas após o Levante Comunista no Rio de Janeiro (a escalada da repressão do governo Vargas havia começado meses antes com a supressão da ALN). Além das Marias, e entre outras mulheres notáveis, ficaram detidas na Sala 4: a alagoana Nise da Silveira, formada na faculdade de Medicina da Bahia, que em 1946 iniciaria um trabalho revolucionário de entendimento do inconsciente por meio de manifestações artísticas; Noêmia Mourão, pintora, desenhista, companheira de Di Cavalcanti, que depois se exiliaria com ele em Paris; Eneida (Costa de Moraes), jornalista, autora do livro sobre a história do carnaval carioca que até hoje é referência e que deixou suas memórias sobre a Sala 4 no livro de crônicas Aruanda, de 1957; Eugênia Álvaro Moreyra (que, na juventude, fora livreira na Freitas Bastos), considerada como a primeira repórter do país, atriz e diretora, mulher libérrima, sufragista, candidatou-se à Constituinte de 1946 pelo PCB, mas não se elegeu — não abandonou a piteira, a franja e a maquiagem nem nos dias de prisioneira da Sala 4; a escritora, poeta e jornalista capixaba Haydée Nicolussi (sobre quem, Drummond, ao ler a notícia da sua morte, em 1970, escreveu uma enternecida crônica); Beatriz Bandeira Ryff, casada com o jornalista Raul Ryff, depois de se exilaria em Belgrado (escreveu um livro de memórias desse período, A resistência), e é personagem do filme Ainda estou aqui, de Walter Salles, vivida pela atriz Helena Albergaria; a alemã Elise Ewert, conhecida como Sabo, expulsa com Olga Benario, que sofreu torturas violentas (teve os seios esmagados com torquês) e era obrigada a assistir às sessões de tortura de seu marido, Harry Berger — ele enlouqueceu; Elza Fernandes (nascida Elvira Cupello Calônio), que “não aparentava mais de 16 anos”, a adolescente alegre e espontânea, companheira do secretário-geral do Partido Comunista, Antônio Maciel Bonfim, o Miranda, que acabou sendo “justiçada” pelos próprios comunistas — sobre ela, Sérgio Rodrigues escreveu o impactante relato Elza, a garota.
“Eram dez ou doze, formavam círculo e entretinham-se a desenferrujar os braços jogando uma bola de borracha. De manhã passavam ali uma hora. Na ida e na volta, demoravam-se às vezes no patamar, afastavam a lona que disfarçava a Praça Vermelha, detinham-se alguns minutos a conversar com os homens. Sinais de relance percebidos serviram-me para distinguir várias delas: os lábios sangrentos de Valentina, a cabeça grisalha de Elisa Berger, os olhos verdes de Eneida. Olga Prestes era branca e serena. Rosa Meireles, forte e enérgica, tinha voz rija, decidida. No rosto ardente de Maria Werneck, no corpo magro, adivinhava-se intensa vibração.” Neste trecho das Memórias do cárcere (reeditado admiravelmente pela Peguin-Companhia, não faz muito tempo), Graciliano Ramos descreve um pouco do cotidiano das prisioneiras da Casa de Detenção; a Praça Vermelha que ele menciona era o espaço entre as celas no Pavilhão dos Primários, onde ficavam os homens.

Madame Moscovita
Em 1988, Maria Werneck, com discrição, simplicidade e força de uma mulher de fibra e grandeza moral, narrou as suas memórias do cárcere no qual ficou detida de dezembro de 1935 até pouco depois da Macedada — como ficou conhecida a determinação do ministro da Justiça Macedo Soares, em 7 de junho de 1937, de libertar todos os presos políticos que estivessem sem processo, provas, justificativas ou julgamento. Em edição quase caseira, com a ilustração na capa de seu filho adotivo Elam Daniel, o livro Sala 4 recebeu uma tiragem inicial pequena, mas valiosíssima no conteúdo, do Centro de Estudos e Solidariedade Amílcar Cabral (CESAC), do Rio de Janeiro.
Elvia Bezerra, que assina a nota inicial da reedição do livro feita agora pela casa matinas, estava presente quando Maria Werneck entregou a primeira edição para Nise da Silveira (Elvia escreveu sobre Nise no seu livro imperecível A trinca do Curvelo — a trinca sendo Nise, Manuel Bandeira e Ribeiro Couto — que terá aguardada reedição pela Todavia em janeiro de 2026 e já está em pré-venda). Ela diz que, no Sala 4, “Maria Werneck mostra um quadro de coragem, muita coragem, idealismo, senso de humor, audácia, sofrimento, criatividade, amor, solidariedade. Esses são apenas alguns dos atributos realçados pela autora que, em ritmo imposto pelo coração e ditado pela convicção, narra o cotidiano de vidas que resistiram com bravura ao regime autoritário de Vargas.”
Maria Werneck (Moraes em solteira; não deve ser confundida com outra Maria Werneck de Castro notável, ilustradora botânica e sua cunhada) foi uma das fundadoras da União Feminina do Brasil, que se preocupava não apenas com as questões políticas, mas também as trabalhistas e de educação para mulheres, e atuou ativamente na Aliança Libertadora Nacional. Conexões da ALN com os comunistas levaram-na à prisão. “Não reconheço este Tribunal. É um Tribunal de exceção”, declarou, quando chegou a sua vez de se defender perante o juiz Costa Neto, do Tribunal de Segurança Nacional, em 23 de fevereiro de 1937. Em seguida, tentou ler uma declaração que levara por escrito, mas foi impedida de fazê-lo pelo juiz. Este fato mostra a tenacidade na defesa de suas ideias (segundo reportagem do jornal O Imparcial, do Rio de Janeiro, o pai de Maria, o advogado e deputado por São Paulo, Justo Moraes, havia tentado, na véspera, por quatro horas, demovê-la da ideia de não reconhecer o TSN e de não se defender). Maria Werneck, que, quando mocinha, um amigo do pai chamava de Madame Moscovita, só viria a se filiar ao Partido Comunista em 1945, após a queda de Getúlio Vargas. Em 47, quando o partido foi colocado novamente na ilegalidade, exilou-se com o marido, Luís Werneck de Castro, também advogado e comunista, na Argentina.
Bichos rastejantes
Sala 4 é um livro mandatório na biblioteca política brasileira. Não apenas pelo relato do cotidiano e do ideário de um grupo de mulheres fora do comum no primeiro presídio político feminino brasileiro. Mas também pelo ato político: ele é um dos precursores da atuação das mulheres que resolveram escrever, ao fim da ditadura militar iniciada em 1964, a sua história política, cerceada de múltiplas maneiras e em vários graus de violência, como lembra Elvia Bezerra na nota introdutória ao Sala 4 (esse movimento cresceria após a instauração da Comissão Nacional da Verdade, em 2012). Até nisso, Maria Werneck, foi uma das pioneiras. Ela, como afirma na abertura do livro, o escreveu motivada por uma ideia muito simples, que aprendera com o nosso memorialista maior, Pedro Nava: “Se os que têm uma visão bondosa dos fatos se abstêm de comentá-los, deixam o campo livre para os bichos rastejantes que babam no tronco das grandes árvores.”
Dica do editorial
Livro: A trinca do Curvelo: os afetos de Manuel Bandeira, Elvia Bezerra. Todavia. Em pré-venda.
Livro: Memórias do cárcere, Graciliano Ramos. Penguin-Companhia.
Livro: Olga, Fernando Moraes. Companhia de Bolso.
Verbete: Maria Werneck – Dicionario biográfico de las izquierdas latinoamericanas.
Documentário: Revolução de 1935. Direção de Cláudio Kahns e Eduardo Escorel. Canal Brasil.

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