Sêneca, Voltaire, Diderot, o cheirinho e a dependência química dos livros
- casamatinas
- há 2 dias
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No dia 17 de junho de 2025, durante mesa no Café Literário da Bienal do Livro do Rio de Janeiro organizada para discutir a sustentabilidade na indústria, o autor desta carta de notícias defendeu junto ao presidente do SNEL que “nós editores precisamos nos organizar contra o shrink”, o filme termoencolhível transparente que envolve o livro na distribuição e comercialização, e é derivado de combustível fóssil.
Concomitantemente, manifestação da escritora Ana Maria Machado, artigos de Afonso Borges na Folha e no PublishNews, manifesto de escritores da COP-30, reportagem no Globo, ampliaram a discussão (necessária) sobre esse tema complexo, uma vez que o shrink, apesar dos problemas ambientais que acarreta, é solução eficiente e barata para atender o desejo do consumidor em ter acesso a exemplares sem defeitos. Para editores e livreiros, ele também é eficaz ao retardar a perecibilidade do livro físico.
O shrink não nasceu com os livros. Ele já era largamente utilizado no mercado de revistas; seu uso foi institucionalizado na indústria livreira pelo vertiginoso crescimento das vendas online. No Brasil, o pioneiro a exigir obras shrinkadas foi o Submarino, cuja marca não significa mais nada na cabeça dos leitores, mas ele foi a primeira grande loja de comércio eletrônico de livros no país. Aos poucos, o shrink foi se institucionalizando até se tornar uma espécie de direito adquirido pelos leitores e uma conveniência para editoras e varejo, incluindo o físico. Lembre-se que além de possíveis agressores como fuligem, poeiras, ranhuras, machucaduras, riscos etc., a umidade é uma poderosa danificadora de livros, uma mercadoria, em tese, feita para durar.
A situação é agravada por que, além do shrink, existe outra película invisível, também derivada de combustível fóssil, largamente utilizada pelas editoras para proteger as capas de livros: a chamada laminação, que pode ser brilhante ou fosca — um filme plástico termolaminável finíssimo, produzido com BOPP (polipropileno biorientado).
Isso significa que a indústria opera com dupla camada de películas derivadas de petróleo ou de gás natural. E tem mais: a petroquímica está na base da maior parte da tinta usada na impressão das páginas (quantas palavras estão sendo impressas no mundo no minuto em que você está lendo esta livros imperecíveis?) e na cola usada na encadernação de boa parte das obras.
E, talvez você não saiba, mas há uma boa probabilidade de existir produto químico no papel da sua leitura atual: dióxido de titânio (ou outros) para garantir a opacidade, resinas para controlar a absorção da tinta, branqueadores para aumentar o contraste com a tinta da impressão, sem contar o couchê, que recebe camada de aditivos químicos.
É um lugar comum as pessoas dizerem que adoram o “cheirinho” do livro: pois bem, este cheirinho é o resultado da liberação dos VOCs, compostos orgânicos voláteis resultado da degradação dos produtos químicos, usados no papel e na tinta, em contato com as fibras da celulose.
Ou seja, o mundo do livro é dependente químico.
Soluções complexas e caras
O editor desta carta de notícias, durante seu período na Companhia das Letras, participou de tentativas de se encontrar soluções, ou pelo menos mitigar, o uso do shrink. Um desses projetos envolveu reuniões com a Suzano, produtora de papel (o Pólen Natural é um avanço, infelizmente incompreendido por muita gente no setor) e a área de sustentabilidade da Amazon. Com esta, chegou-se a pensar especulativamente em um desconto especial para leitores que aceitassem receber seus exemplares sem o shrink.
Todas as iniciativas se mostraram bastante complexas e, sobretudo, não se vislumbrou uma solução de larga escala que fosse competitiva em custo contra o invólucro transparente que protege o exemplar em todo o processo (manuseio na gráfica, transporte para o depósito das editoras, manuseio e armazenagem no depósito das editoras, transporte para as livrarias, manuseio por vendedores e leitores no chão de loja, manuseio e entrega aos leitores nas vendas online, manuseio na logística reversa, manuseio novamente no depósito das editoras e, neles, armazenagem por tempo indeterminado).
A solução não é simples (o debate sobre a sustentabilidade do livro cresce globalmente, mas todos os estudos apontam para a complexidade das soluções, uma vez que maioria delas acarreta aumento no preço de capa, num setor que está atingindo o limite da elasticidade de seus preços). Veja o exemplo da casa matinas, que, em princípio, tomou a decisão de não recorrer ao shrink, além de ter adotado outras medidas que caminham na direção do livro mais sustentável — como eliminar o desperdício de papel na impressão e utilizar papel natural. A editora só consegue executar a decisão até a página 2, ou seja, nos momentos em que vende diretamente os seus títulos em feiras e lançamentos.
Fora dessas ocasiões, a distribuição e comercialização das obras é feita por terceiro, o mesmo que imprime seus livros sob demanda (permitindo assim enorme economia de papel). Como somos uma editora pequena, não temos escala para conseguir uma alteração no processo de vendas online do parceiro (parceiro que, não fosse a predominância do shrink na distribuição e comercialização, também optaria por eliminar esta etapa da sua linha de trabalho, cortando um custo e protegendo o ambiente, pois esse é seu posicionamento geral ao se especializar em impressão sob demanda, ao emitir menos gases poluentes com a utilização de impressoras digitais e ao usar tinta à base d´água na impressão). A casa matinas também não encontrou disponível no mercado um papel cartão isento para suas capas à altura do que o Polén Natural representa, em termos de sustentabilidade, para o miolo de seus livros.

Papel e diesel
O debate em torno do shrink é necessário e bem-vindo, mas não é o maior dos problemas causados pela cadeia do livro. A urgência dos desastres ambientais obriga-nos (editores, livreiros e leitores) a ter um debate franco e transparente sobre o excesso de utilização e desperdício do papel (que, está na Constituição, tem imunidade tributária) e o excesso de emissão de gases na distribuição (e retorno dos livros distribuídos e não vendidos). No Brasil, a entrega de livros é quase que integralmente realizada rodando em cima de combustível fóssil, e muitas vezes em longas distâncias.
No mundo inteiro, há um duplo desperdício de papel: lança-se mais títulos novos do que o leitorado consegue absorver, em tiragens também maiores do que a totalidade dos compradores consegue absorver. Quando se trata de livros os números não são nunca precisos, mas existem vários autores que mencionam que, a partir do século XXI, rompeu-se a barreira do um milhão de novos lançamentos anuais em todo globo — e podemos atualmente (com os livros digitais e a autopublicação) estar chegando aos quatro milhões anuais de novos títulos.
Afonso Borges afirma que o Brasil imprimiu 366 milhões de exemplares em 2024. Suponha, apenas para efeito de visibilidade do processo, que cada um desses exemplares tenha em média 152 páginas (no sistema de impressão analógico, o número de páginas é múltiplo de 4): estaríamos falando da impressão anual de 55,6 bilhões de páginas, o que daria razão a um editor que afirma que quem ganha dinheiro com livro não são os editores, não são os livreiros, e, certamente, não são os autores: são os fabricantes de papel.
Em 2025, o painel da Nilsen/Snel relata que foram vendidos 60,33 milhões de exemplares no mercado local. Mesmo que a comparação feita aqui seja entre anos diferentes (2024, para produção, 2025 para a venda), mesmo se levando em consideração que o painel Nilsen/Snel não mede a totalidade da venda dos livros (os entregues nos programas de governo estão fora, por exemplo), e mesmo se levando em consideração que as tiragens têm diminuído e que a impressão sob demanda está crescendo, o desperdício de papel ainda é mirabolante — e ele contrata outro imenso desperdício, o do óleo diesel para sua distribuição e posterior recolhimento.
160 mil caminhões
Lembre-se que o excesso de consumo de papel é uma das pautas ambientais mais importantes da vida contemporânea: no livro Ecos do Antropoceno, publicado pela casa matinas, o autor, o ambientalista Luiz Villares, mostra um gráfico assustador sobre o crescimento desse consumo (do qual a produção para uso editorial é apenas uma pequena parte, mas é a parte que, amantes e profissionais do livro, nos cabe resolver para contribuir para um mundo ambientalmente sustentável). Estima-se que de todo o lixo que vai para os aterros, quase um quarto seja papel.
O papel é de longe o maior responsável pela emissão de gases pelo livro, representando 41% deles, segundo dados da indústria americana. Uma matéria da Chicago Review of Books diz que cerca de 160 mil caminhões carregados de exemplares são descartados todos os anos e 10 milhões de árvores foram derrubadas para produzi-los nos EUA, onde sobram 340 milhões de exemplares impressos e não vendidos anualmente; na França, são 140 milhões. Uma tonelada de produção de papel consome 24.000 litros de água, 4 kW de energia, 27 kg de emissão de dióxido de carbono e cerca de 17 árvores. (Sobre o papel reciclado: não se produz suficientemente para abastecer o tamanho do mercado e, além disso, hoje, se questiona o nível e a efetividade das reciclagens, embora eles sejam preferíveis aos não reciclados).
O mundo dos livros vive diversos paradoxos, entre eles, este: lança-se mais e mais títulos enquanto as prateleiras das livrarias diminuem (o espaço para livros nas livrarias diminuiu ainda mais com a nova tendência de se expor as obras com a capa, e não a lombada, virada para o comprador; foi-se o tempo em que se aconselhava o leitor a não comprar o livro pela sua capa...). Isso criou um círculo vicioso: para poder colocar os novos lançamentos, que chegam semanalmente, é preciso tirar o mesmo número de títulos dos pontos de venda. O resultado é que os livros ficam menos tempo nas livrarias, encurtando ainda mais o seu tempo de exposição. Com menos tempo de exposição, diminui-se a probabilidade de venda da tiragem inicial, crescendo as sobras — e, com elas, consequência natural da oferta maior do que a demanda, os descontos.
O aumento dessa rotatividade gera outro aumento, o dos gastos (e as emissões de gases) com a distribuição. E aumenta também os gastos com a publicidade: como a obra fica pouco tempo nas livrarias, é preciso divulgá-la ao máximo na primeiras semanas de seu lançamento. Excesso de livro sendo divulgado ao mesmo tempo não gera comunicação, gera ruído. Como os ambientalistas costumam dizer, desperdício gera mais desperdício.
Ideia antiga
A ideia de que muito livro não é bom é bem antiga. “Abundância de livros, perplexidade para o espírito”, dizia o cordobês estoico Lúcio Aneu Sêneca, no engatinhar da era cristã. Em seu Das leituras, ele completava: se você não consegue ler todos os livros que tem, contente-se em ter apenas os que consegue ler. Em lançamento interessantíssimo (Hipocritões e olhigarcas, Tinta da China, 2025), o historiador português Rui Tavares diz que as reclamações sobre o grande número de livros é quase tão antiga quanto o aparecimento das prensas para imprimi-los, uma vez que se tornou mais rápido e mais barato produzi-los do que copiá-los manuscritamente.
Tavares faz uma distinção de grandes consequências para os leitores — em linha com as ideias de Sêneca: no tempo dos manuscritos, que eram poucos, “a leitura era principalmente intensiva, o que significava simplesmente ler o mesmo livro muitas vezes” (e em voz alta, para um grupo de pessoas); a partir dos livros impressos, a leitura passou a se extensiva e se lê (muitas vezes apenas trechos ou superficialmente) mais títulos menos vezes.
Em perspectiva histórica, ainda com Rui Tavares: “No entanto, a verdade é que já no século XVI, mais ainda no século XVII, depois muito claramente no século XVIII, a ideia de que há livros a mais — ninguém consegue ler tudo, isto é mau para a sociedade, deveríamos ter uma maneira de limitar o número de livros — é absolutamente comum”. Naquele século, Diderot, que fazia lobby para o seu editor, confirmava em sua Carta sobre o comércio dos livros, de junho de 1767, que cópias de livros eram destruídas por terem encalhado. O iluminismo não só foi o primeiro grande movimento filosófico a se apoiar no crescimento das tiragens dos livros, mas também no encalhe deles.
Uma década antes, Denis Diderot, havia declarado que “esses malditos editores querem publicar tudo”, conforme revela o enorme historiador do mundo editorial Robert Darnton, em Pirataria e publicação: o comércio de livros na era do Iluminismo (Unesp, 2021). O mexicano Gabriel Zaid escreveu que “a raça humana publica um livro a cada 30 segundos” (Livros demais, Summus, 2004; ele também dizia que “os livros são publicados com tanta rapidez que nos fazem exponencialmente mais ignorantes”.)
É certo que o número de escritores também cresceu (em ótimo ensaio publicado pela revista Serrote nº 12, Na banheira, encarando o abismo, Lars Iyer afirma que hoje “há mais graduados em programas de escrita do que pessoas vivas na Londres da época de Shakespeare”): ambos, autor e obra, segundo Zaid, aumentaram em taxas mais altas do que a do crescimento da população em geral — que dirá da taxa do crescimento de pessoas que se tornarão leitoras no futuro.
Como se vê, sempre se lançou muito livro, mas a questão agora é que temos urgência no combate aos desastres ambientais. Isso muda tudo e mais alguma coisa. É preciso criar uma economia verde para o livro; publicar, distribuir e vender as melhores obras que defendem a preservação ambiental e, ao mesmo tempo, não mudar as práticas que levam aos imensos desperdícios em várias camadas e ao aumento das emissões de dióxido de carbono, não é moralmente defensável. É greenwashing.
“Somente um comprometimento total com a preservação e restauração ambiental redimirá uma indústria que é responsável por uma enorme quantidade de desperdício e destruição”, afirma Lucy Kogler, colunista do necessário Literary Hub.
Sabemos que a transição será complexa, cara e difícil Mas difícil não é impossível.
Dica do editorial
Livro: Hipocritões e olhigarcas; passado e futuro das guerras culturais, Rui Tavares, Tinta da China, 2025.
Livro: Livros demais! Sobre ler, escrever e publicar, Gabriel Zaid, Summus, 2004.
Livro: Pirataria e publicação: o comércio dos livros na era do Iluminismo, Robert Darnton, Unesp, 2021.
Ensaio: Nu na banheira, encarando o abismo (um manifesto sobre o fim da literatura e dos manifestos), Lars Iyer, serrote nº 12, novembro 2012.
Artigo: The publishing industry has a serious waste problem, and it needs to stop now, Lucy Kogler, Literary Hub, 09/04/2025.
Artigo: Book waste: the dangers of publishing and the ethical consumption of books, Macy Berendsen, Chicago Review of Books, 07/12/2023

Expediente: Livros Imperecíveis, a newsletter da casa matinas. Março, verão de 2026. 16ª edição. Escrito por Matinas Suzuki Jr., editado por Luiza Nobre, diagramado por Amanda Piva.



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