O jornalismo segundo Lacerda, com uma nota de Mário Magalhães
- casamatinas
- 18 de nov. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 11 de dez. de 2025

“No verão, se a chuva não der o ar de sua graça para o nosso lado, o calorão do ensolarado diurno fica amoitado dentro das casas de noite. Isso leva o pessoal da roça para o terreiro depois do jantar. (...) A noite sempre traz o assoprado de uma brisa, e a doce frescura dessa prenda mais o proseado solto e o bem-bom da barriga cheia fazem o descanso do corpo cansado do homem da terra. Assentado em bancos e cadeiras toscas, dispostos em roda para ficarem vis-à-vis, puxam algum assunto do dia. E se ele não foi novidadeiro, vale tirar da soneca do já passado e falado, de tempos marchados, lembrança boa ou apenas engraçada. Se há luar, de lua cheia, melhor. A gente deixa de ser apenas um vulto.”
O autor desta poderosa descrição de sua infância na roça, filho das primeiras imigrações japonesas no início do século XX, poderia ter sido escritor. Poderia também ter sido ilustrador: chegou a fazer bicos-de-pena para o Suplemento Literário do Estadão, à época editado por Sérgio Milliet, homem de importante atuação intelectual na vida cultural paulista; gerações leram Montaigne na sua tradução. Mas, ele foi médico (e autor de um livro, Memórias de um vivente obscuro, do qual o trecho acima foi retirado). Seu nome inspira a nascente casa que edita esta carta de notícias.
Ele também foi vereador em cidade, à época, com cerca de 65 mil habitantes, no interior paulista. Tempos em que a política era atividade pro bono, alimentada por idealismo e defendida com revólveres — à noite, voltando de comícios, nos quais se inflamava com o microfone na mão, caminhava pelo meio da rua para a própria segurança. Era militante da União Democrática Brasileira (UDN) e seguidor fervoroso de Carlos Lacerda. A polarização (não se usava o termo na época) local era com o Partido Social Progressista (PSP), com o qual a família de sua mulher tinha afinidades.
Juntos aos LPs de boleros de Anysio Silva, do Trio Irakitan e de Nat King Cole cantando em espanhol, havia na sua discoteca o vinil de Carlos Lacerda lendo trechos de Joaquim Nabuco, José Bonifácio e Ruy Barbosa, e uma exortação cívica de sua autoria (o LP era lançamento da Tribuna da Imprensa, jornal que Lacerda dirigia; o audiobook existe há tempos no Brasil). Tempos de uma política que passava pelo expressividade do verbo: da Banda de Música da UDN (seus políticos ruidosos nas tribunas, nos palanques e nas rádios), das “mal amadas” (expressão criada pelo menino grande Antônio Maria para ser referir às mulheres de classe média seguidoras de Lacerda), da República do Galeão (o pessoal da Aeronáutica que investigou com grande estridência o atentado à Lacerda na Rua Tonelero) e do Corvo (apelido dado a Lacerda pelo seu ex-compnheiro de imprensa Samuel Vainer que, ilustrado por Lan nas páginas da Última Hora, entrou definitivamente para o relicário da política nacional).
Anticomunista, teve que conviver com um filho trotskista, outro brizolista e outro que namorava uma jovem cuja família era do Partido Comunista Brasileiro (do qual, aliás, Lacerda havia sido muito próximo).
Carlos Lacerda dividiu a vida de político com a de jornalista (mais tarde, ser tornaria editor, fundando a Nova Fronteira, uma das editoras renovadoras do mercado de livros brasileiro). “Quando não fui jornalista, fui desempregado”, dizia. Pelo jornalismo, ganhava e perdia a sua vida. Era bem-informado sobre as tendências da imprensa no mundo e conhecia os episódios marcantes da história do jornalismo, incluindo os exóticos, como este caso que cita: quando, em 1924, caiu o gabinete de Ramsay MacDonald, o primeiro membro do Partido Trabalhista a se tornar primeiro-ministro do Reino Unido, um jornal do Ceará começava assim o seu editorial: “Se o sr. MacDonald tivesse ouvido as advertências que daqui lhe fizemos...”.
Uma das coisas mais interessantes nas nossas redes sociais (sim, elas existem) são os posts que o jornalista Mário Magalhães tem feito com fotos, documentos ou informações sobre Carlos Lacerda, o mais controverso dos políticos modernos brasileiros. Minerador sisífico, biógrafo isento e rigoroso (veja sua bio de Marighella), Mário vem trabalhando há anos na história de Lacerda — anuncia-se o primeiro volume para março de 2026, naquele que certamente será um dos mais importantes lançamentos da Companhia das Letras no ano que vem.
A pedido da casa matinas, Mário Magalhães — que tem mais de duas dezenas de premiações, entre elas o Jabuti, o Esso de Jornalismo e o Every Human Has Rights Media Awards — escreveu a nota introdutória (veja a seguir) de A missão da imprensa, a conferência sobre jornalismo que Carlos Lacerda fez em 1949, no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte. Lacerda publicou-a em livro pela primeira vez no ano seguinte; sua última reedição é de 1990, pela EDUSP, coordenada por Plínio Martins Filho. Com atualizações e mais notas de contextualização, o livro volta agora ao mercado dentro da coleção Se o homem morde o cachorro, desta editora.
Se vivo, o homem que inspirou esta pequena casa ficaria muito satisfeito em ver um livro de Carlos Lacerda na editora que leva o seu nome.
A marca da eternidade
Mário Magalhães
A turbulenta história política de Carlos Frederico Werneck de Lacerda (1914-1977) ofuscaria, na posteridade, sua trajetória no jornalismo. Ao publicar A missão da imprensa em 1950, pela Livraria Agir Editora, ele tinha 36 anos, dos quais vinte de profissão. Engatinhara em 1930 como repórter da Página de Educação do jornal carioca Diário de Notícias. Sua primeira chefe foi a poeta, professora e jornalista Cecília Meireles.
O Lacerda jornalista exerceu funções de repórter, redator, editor, cronista, articulista, crítico literário, ilustrador, correspondente internacional, secretário (o principal executivo da redação) e diretor de periódicos. Caracterizou-se pela obsessão por inovar. Criou em 1933 a revista cultural rumo, escrita só com letras minúsculas e com vastos espaços brancos arejando as páginas — “mensário modernista”, timbraram. Em 1943, introduziu na Agência Meridional o lead, técnica de abertura da notícia com a informação mais relevante, influência do jornalismo norte-americano. Secretariando O Jornal, no ano seguinte, ensinou que fotografia não constitui penduricalho estético, e sim unidade informativa.
As conferências que deram origem a este livro ocorreram em 1949, às vésperas do lançamento da Tribuna da Imprensa, vespertino propriedade de 3.400 acionistas e dirigido por Lacerda. Ele deixara o Correio da Manhã por não aceitar a proibição de críticas, em sua coluna, a estímulos públicos a refinarias privadas de petróleo. A despeito de agudas controvérsias editoriais, a Tribuna se consagraria como fecunda escola formadora de jornalistas.
A missão da imprensa é documento incontornável para reconstituir a história do jornalismo brasileiro, atavicamente avesso a se mirar no espelho. É também convite à reflexão sobre desafios jornalísticos contemporâneos. Quando o autor cutuca a mazela da publicidade veiculada “como matéria de redação, isto é, anúncio fingindo que não é anúncio”, sua inquietação atravessa o tempo e nos perturba.
Mais político do que jornalista ou o contrário, a depender do olhar, Carlos Lacerda expõe no livro seu pensamento em meados do século 20. Sempre visceral, ele abjurara o comunismo e o ateísmo e se convertera ao anticomunismo e à fé católica. Diante de suas opiniões, é legítimo concordar, discordar, ponderar. Mas é difícil permanecer indiferente.
Sua definição de jornalismo perdura entre as mais inspiradas: “De certo modo, ele é a arte de simplificar a complexidade dos fatos e das opiniões, tornando-os acessíveis à compreensão de um número apreciável de pessoas, fixando-os num momento da sua trajetória, o que confere certa permanência à sua transitoriedade. E assim, na imobilidade de um momento, neles encontra a marca da eternidade”.
Dica do editorial
A república das abelhas, ficção de Rodrigo Lacerda, Companhia das Letras. Um mergulho na personalidade complexa e na história de seu avô, Carlos Lacerda, tornado narrador em primeira pessoa.
Instagram: mario.magalhães_ Fotos, documentos e informações que está colhendo para a biografia de Carlos Lacerda a ser lançada pela Companhia das Letras em 2006.
Google e Youtube: Carlos Lacerda lendo a sua tradução de Júlio César, de Shakespeare, lançada em vinil pelo selo Elenco.
O quilombo de Manuel Congo, primeiro livro de Carlos Lacerda, reeditado em 2024 pelo Museu de Vassouras, com projeto gráfico de Cláudia Warrak e posfácio de Mário Magalhães.
“O tribuno da imprensa”, Otavio Frias Filho, revista Piauí, edição 91, abril de 2014. Durante um tempo, Otavio Frias Filho pensou em escrever uma biografia de Carlos Lacerda, projeto que não levou adiante.

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