Mulheres negras e pardas de classe C são as maiores compradoras de livros; e ainda Lorenz Hart, E.B. White e o Shylock de Dan Stulbach
- casamatinas
- 10 de abr.
- 6 min de leitura

Está passando sem o necessário destaque o fato mais relevante sobre os livros no Brasil em décadas: mulheres pretas e pardas de classe C formam o grupo que mais compra livros no país. As mulheres representam 61% do mercado; as negras e pardas são metade desse grupo feminino. (Os dados são do último Panorama do Consumo de Livros, da CBL com a Nielsen Book Data.)
Imaginem o que poderia acontecer com a cultura no Brasil se essas mulheres negras e pardas de classe C tivessem maior poder aquisitivo para comprar ainda mais livros, e mais tempo — elas que trabalham diversos turnos por dia — disponível para lê-los? E mais apoio em programas de desenvolvimento e incentivo à leitura? E mais acesso a bibliotecas?
Seria a nossa primavera, a nossa revolução cultural.
O letrista e o mestre do estilo
Na noite de 31 de março de 1943, no bar do Sardi’s (em 2027, fará 100 anos de lendas no mesmo endereço no Distrito do Teatro, em Nova York), o baixinho e melancólico letrista Lorenz Hart, que morreu de alcoolismo aos 43, reverencia, em encontro surpreendente, o mestre do ensaio, o super-herói desta carta de notícias, E. B. White.
O encontro foi imaginado pelo roteirista Robert Kaplow para o filme Blue moon (2005), dirigido por Richard Linklater. Ele escreveu diálogos longos, de inspiração teatral, recheados de digressões sobre o uso estilístico em musicais, em letras de canções, em ensaios. Foi indicado ao Oscar de melhor roteiro, mas ninguém mais está interessado em cinema falado.
Inidentificável, Ethan Hwake faz Lorenz Hart à beira do precipício (se você alguma vez derrubou uma lágrima ouvindo My funny Valentine, Blue moon ou Everything happens to me, ponha na conta dele).
O britânico Patrick Kennedy interpreta E. B. White, o homem para quem todas e todos na redação da The New Yorker, à época pertinho do Sardi’s, tiravam o chapéu. Se a revista das revistas teve alguma vez uma “voz” (substantivo usado hoje em 11 de cada 10 press-releases de editoras para anunciar uma nova escritora ou um novo escritor), foi a dele, nos magníficos ensaios e nos textos que escrevia para as colunas “Notes & Comment” e “The Talk of the Town”.
Sobrinho-neto de Heine
Embora Larry Hart tenha nascido no Harlem, sua mãe, imigrante alemã, era sobrinha do enormíssimo Heinrich Heine (se você nunca leu nada dele, tente Viagem ao Harz, que tem edição da 34, com tradução de Maurício Mendonça Cardoso). E duas curiosidades, de interesse para a tribo desta Livros Imperecíveis: a) ele estudou jornalismo na Columbia, e b) até onde se tem notícia, foi o único compositor da grande canção americana a colocar numa letra a figura de alguém disposto a escrever um livro (“if they ask me/ I could write a book...”, incluída no musical Pal Joey, de 1940; teve versão para o cinema com Rita Hayworth e Frank Sinatra, disponível no YouTube.)
Se a alguém fosse permitido fazer apenas uma coisa perfeitamente na vida, Lorenz Hart poderia ter feito só a letra, com as suas refinadas rimas internas, de Bwiteched, bothered and bewildered. (Seria interessante ver como Carlinhos Rennó — que está de volta com uma ótima reedição do seu livro com as versões de Cole Porter — resolveria o desafio de traduzir esta letra). Mesmo que você não entenda o significado das palavras em inglês, veja como Hart brinca com a sonoridade desses versos curtos: Vexed again, perplexed again/ Thank God, I can be oversexed again.
Tão cedo?
O roteirista Robert Kaplow, autor do livro Me and Orson Welles (2005, não traduzido no Brasil), disse numa entrevista que as palavras podem ser suficientes em um filme — no lugar de grandes torneios de câmeras. Em Blue moon, ele cria um Lorenz Hart magnânimo nos elogios aos ensaios de E. B. White (“eu adoro a sua pontuação, é impossível mudar uma vírgula”).
Não é trivial escrever o roteiro de um filme dedicado a alguém praticamente esquecido como o letrista, e ainda colocá-lo em cena conversando com alguém ainda menos conhecido como Andy White. Tamanha é a fé de Kaplow nas palavras. Na cena do encontro dos dois, o Hart de Kaplow menciona o mais perfeito final de ensaio jamais escrito (White escreveu-o na Flórida, em 1941): so soon?

A cigarra
David Drew Zingg, o amigo americano, fotógrafo que escrevia bem e tinha a etiqueta gravado “press” na fita que envolvia o seu espírito, acalentava um projeto: traduzir para o português The elements of style, o manual de redação que E. B. White compilou e ampliou a partir das lendária aulas de estilo do professor Wlliam Strunk Jr. (ele dava English 8, em Cornell). Na década de 1910, Bill Strunk já praticava a autopublicação: ele vendia as cópias que mandava imprimir do manual, chamado por ele de “o pequeno livro”.
Gerações e gerações de escritoras e escritores, de jornalistas e quejandos se formaram com o Strunk & White. Em 2005, Maira Kalman fez esplêndidas ilustrações para ele, tornando The elements of style o manual de redação mais bonito já editado. Para jornalistas, a regra 16 do capítulo II do pequeno livro deveria ser mandatória: “prefira o específico ao geral, o definido ao vago, o concreto ao abstrato”.
No seu leito de morte, Zingg pedia ao amigo brasileiro que lesse (com sua incompreensível pronúncia), na edição dele dos Writings from The New Yorker (1927-1976), trechos da quintessência do jornalismo literário — White era fundamentalmente um literato da imprensa — para os quais não cabem muito a definição de gênero: são ensaios curtos? São comentários? Uma minicrônica, como tenderíamos a chamar brasileiramente? São sketches, na tradição anglo-americana?.
O amigo lia, parando aqui e ali para um discreto soluço, a peça Life, publicada na New Yorker em 9 de janeiro de 1945. Ei-la, numa busca de tradução:
“Às oito de uma manhã quente, a cigarra conta sua primeira história. Ela diz do mundo: quente. Às onze do mesmo dia, ainda cantando, ela não mudou o tom mas expandiu o seu tema. Ela diz da manhã: amor. No abafado calor da tarde, quando a tristeza do amor e o calor a sacodem, sua alma sinfônica atinge o movimento maior e ela diz: morte. Mas a coisa não acabou. Depois do jantar, ela tece calor, amor e morte numa stanza final, mais sutil e menos estridente que as outras. Ela não tem um último monossílabo heroico a seu dispor. Vida, ela diz reminiscendo. Vida.”
A melhor, sem a letra
Na Folha, escrevendo sobre o filme Blue moon, o colunista João Pereira Coutinho aproveitou a ocasião e escolheu as melhores gravações de alguns dos standards que tiveram a letra composta por Lorenz Hart (a música, sabe-se, era sempre de Richard Rodgers).
Difícil decidir qual o melhor registro de It never entered my mind: o número de boas cantoras e bons cantores que a gravou é imenso. Coutinho prefere a versão de Susannah McCorkle. Esta Livros Imperecíveis tem uma queda pela clássica versão de Shirley Ross (acompanhada pela orquestra de Ray Sinatra), que apresentou a canção à Broadway, em 1940, no espetáculo Higher and Higher.
Mas a gravação imbatível mesmo, desculpe-nos Mr. Lorenz Hart, é uma versão que deixa de lado... a sua formidável letra: a de Miles Davis e quinteto, registrada no disco Workin’, de 1956. Quinteto é modo de dizer: o imperecível John Coltrane sopra seu sax discretissimamente em poucos compassos, deixando a proeminência para o diálogo do trompete com o piano de Red Garland. O consolo para o atormentado Larry Hart é que, mesmo ouvindo o sopro em surdina de Miles, não deixamos de rememorar interiormente e sua letra.
Monólogo de Shylock
Fazer o Mercador de Veneza, neste momento de incompreensão política máxima, é um ato de grande coragem. Fazê-lo como faz Dan Stulbach, na arena do Tuca, é um ato de transcendência. Seu “monólogo de Shylock” é um dos grandes acontecimentos artísticos em São Paulo. Em qualquer arte.
A crítica Barbara Heliodora, que traduziu essa comédia perturbadora de Shakespeare, também escreveu um ensaio notável sobre ela (está no livro Falando de Shakespeare, Perspectiva, 1997). Heliodora observa as elipses e as maneiras com as quais o bardo humaniza os estereótipos e os preconceitos. Sem ser rei, nobre ou herói, muito ao contrário, Shylock é um dos enormíssimos personagens do bardo. Dan Stulbach mostra o seu tamanho.

Dica do editorial
Peça: O mercador de Veneza, William Shakespeare. Tuca Arena, de terças a domingo. Direção Daniela Stirbulov. Até 17 de maio de 2026.
Raridade: Imagens Lorenz Hart compondo com seu parceiro Richard Rodgers, em 1929
Música/vídeo: Bewitched, bothered and bewilded, com Rita Hayworth:
Música: It never entered my mind. Miles Davis Quintet, Prestige Records.
Livro : Cole Porter: canções, versões, que de-lindo. Carlos Rennó. Contracorrente, 2025.
Livro: The elements of style, illustred. William Struck Jr., E. B. White and Maira Kalman. The Penguin Press, 2005, New York.
Expediente: Livros Imperecíveis, a newsletter da casa matinas. Abril, outono de 2026. 17ª edição. Escrito por Matinas Suzuki Jr., editado por Luiza Nobre, diagramado por Amanda Piva.



Comentários