Com a nova coleção Socrácia e pensadores que ensinam a viver, a filosofia chega à casa matinas
- casamatinas
- 6 de mai.
- 7 min de leitura

Para quem acha que viajar (o americano Ralph Waldo Emerson, um dos 15 pensadores incluído no volume A arte de viver ensinada pelos clássicos, um dos novos títulos da casa matinas que chega neste “mais triste maio” ao mercado, era contra: “viajar é o paraíso dos tolos”, escreve ele) é o segredo da vida, lembre-se que um dos filósofos decisivos para a universalidade da razão nunca foi além das redondezas da sua cidade. Da permanência em Königsberg (fundada em 1225 por Cavaleiros Teutônicos, importante centro cultural da Prússia, anexada à Rússia depois da Segunda Guerra passando a se chamar Kaliningrado), Immanuel Kant mudou o curso da filosofia no século XVIII. Seus hábitos eram tão regulares que Ernest Cassirer disse que os habitantes da cidade ajustavam os relógios com o horário de suas caminhadas; Thomas de Quincey, baseado no relato de um pupilo de Kant, conta que ele gostava de dar jantares, e que seguia a regra de Lord Chesterfield: o número de pessoas à mesa nunca deve ser menor do que o das Graças e nunca maior do que o das Musas. Ah, e Kant, que se vestia com apuro (daí ser conhecido como elegante magister), gostava de jogar bilhar.
Enfim, um Kant que dá para ler
Márcio Suzuki, professor da cadeira de estética no departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo, estudioso de Kant e coordenador da nova coleção Socrácia da casa matinas, selecionou e traduziu, das aulas ministradas pelo filósofo em Königsberg, os trechos em que ele discorreu sobre a vida (aliás, Sobre a vida é justamente o título deste livro que apresenta um recorte original do pensamento kantiano). O objetivo de Kant era formar os alunos para o mundo, mais do que passar conhecimento sobre esta ou aquela matéria; por isso, os textos deste volume são mais compreensíveis para os leitores não familiarizados com a filosofia do que os escritos “impenetráveis” de suas obras de referência (Crítica da razão pura, Crítica da razão prática e Crítica do juízo).

Como se formam jovens para o mundo? Demonstrando, por exemplo, que a vida é um palco onde todos nós representamos. Ou dizendo, entre outros ensinamentos, que “sem ilusão, nada é de utilidade para o gênero humano”; ou que “sem princípios, ninguém é feliz” — frase importante para uma época sem princípios e sem fins como a que estamos vivendo. Talvez seja um traço de nossa época também a profunda desvalorização ideológica do trabalho, que passou a ser algo sem finalidade (a não ser a remuneração) e sem sentido. Kant, na tradução de Márcio Suzuki: “ninguém pode desfrutar de verdadeiro contentamento a não ser no trabalho. Este é tão necessário ao indivíduo que à sua falta ele não poderia passar tão bem seu tempo quanto no trabalho mesmo”.
Povos e governos não aprendem com a história
“Repreendemos regentes, estadistas, povos, principalmente a partir de exemplos tirados da experiência da história. Mas o que a experiência e a história ensinam é isso: que povos e governos jamais aprenderam algo da história e jamais agiram segundo ensinamentos que pudessem ser extraídos dela”, afirma Georg Wilhelm Friedrich Hegel, no Introdução aos cursos de filosofia da história, o outro livro da coleção Socrácia que está sendo lançado pela casa matinas, com tradução de Oliver Tolle, também professor do departamento de Filosofia da USP.

De nada adiantou, argumenta Hegel, os personagens da Revolução Francesa recorrerem a exemplos da Antiguidade Clássica, de gregos e de romanos: “No tumulto dos acontecimentos do mundo de nada ajuda um princípio universal, nem a recordação de relações semelhantes, porque algo como uma pálida recordação não possui nenhuma força frente à vivacidade e liberdade do presente.”
Hegel via “a história como esse matadouro, onde são sacrificadas a felicidade dos povos, a sabedoria dos Estados e a virtude dos indivíduos” e que ela requeria “sacrifícios monstruosos”; ele considerava que há uma racionalidade inerente à história humana, “sem a qual ela seria compreendida apenas subjetivamente, como algo que ocorreu a um grupo de indivíduos”. Na sua introdução, o tradutor e autor das notas de rodapé do volume, afirma que “dentre as obras de Hegel, talvez esses Cursos de filosofia da história sejam uma das melhores portas de acesso para a compreensão de sua filosofia”. Esta edição da casa matinas ainda tem um bônus track: excertos da obra Diretrizes da filosofia do direito, selecionados por Oliver Tolle, uma vez que ela é citada diretamente por Hegel no início dos Cursos de filosofia da história.

Pescado em águas profundas
No início da década de 1960, quando trabalhava como editor na Cultrix, uma das casas editoriais preciosas da história livresca de São Paulo, o tradutor, poeta, autor de livros infantis e mentor de uma geração de jornalistas e trabalhadores do livro, José Paulo Paes empreendeu uma tarefa titânica: selecionar, traduzir e organizar um volume desentranhando das obras de quinze pensadores, de época, lugares e línguas diferentes, trechos que pudessem servir para formar para brasileiras e brasileiros para o mundo — num movimento na mesma direção (guardadas todas as diferenças) com o que vimos no começo desta carta de notícias, em que Kant procurava formar para o mundo seus jovens estudantes em Könisgberg.
Pescado por Márcio Suzuki nas águas profundas dos livros que não encontram reedições no mercado brasileiro, A arte de viver ensinada pelos clássicos, relançada agora em maio pela casa matinas dentro da coleção Clássico é clássico e vice-versa, traz excertos do pensamento de, vamos lá, Confúcio, Epicuro, Cícero, Sêneca, Plutarco, Epicteto, Marco Aurélio, Boécio, Vives, Montaigne, Francis Bacon, Pascal, Manuel Bernardes, Marquês de Maricá e, ufa!, Emerson. São 78.167 palavras de pura sabedoria (no rodapé, esta reedição conta com 218 notas de contextualização).

Na primeira camada, o livro pode se adequar perfeitamente à desenfreada procura em nossos dias de frases e tiradas que pareçam ajudar (ou que realmente ajudem) a viver. Nas camadas mais fundas, o espírito de José Paulo Paes era o de tornar acessível à leitora e leitor local ensinamentos para uma vida com princípios, com valores, com ética. Lembrem-se de que estamos falando de um Brasil que tinha, em 1962, quando a primeira edição foi lançada, uma colossal maioria de analfabetos e uma formação plena só acessível à minoria-minoria. A “vida feliz” que o livro almeja é a vida que, além dos regalos epicuristas (e ele mostra que Epicuro não era tão epicurista assim), torna-se virtuosa. Os autores clássicos, diz JPP no prefácio, citando Irwin Edman, indiferentes ao passar dos anos, continuam “a sussurrar aos ouvidos de cada geração que é possível, durante as horas de perplexidade, de derrota ou de desespero, em face da violência pública ou da incerteza privada, das turbulências interiores ou dos desastres exteriores, alcançar equanimidade de vida e serenidade de espírito.”
Entre tantos pensamentos, frases, conselhos e tiradas contidos em A arte de viver ensinada pelos clássicos, um deles, de autoria de Plutarco, simboliza claramente a preocupação de José Paulo Paes em promover algo que vá além do meramente se autoconhecer: “Assim, toda a vez que admirares como superior a ti um homem conduzido numa liteira, não te esqueças de olhar também para os carregadores.”
Livros, leituras e discursos
Os três novos livros da casa matinas (Sobre a vida, Introdução aos cursos de filosofia da história e A arte de viver segundo os clássicos) tangenciam o reinado misterioso e poderoso das palavras, razão de ser da tribo que orbita aqui nesta Livros imperecíveis.
Kant: “As comédias nos proporcionam contentamento, por outro lado também perdemos com elas, pois teríamos podido ler um bom livro”; “Isso vai tão longe que nenhum romancista consegue descrever um casamento feliz.”
Hegel: “Discursos, contudo, são ações entre homens, e na verdade ações em essência muito efetivas. (...) Mas discursos de povos para povos, ou dirigidos a povos e soberanos são elementos integrantes da história.”
Confúcio: “Ler sem meditar no que se lê traz confusão mental. Meditar sem ler traz insegurança”; “Abundância de livros, perplexidade para a espírito.”
Sêneca: “Há outra coisa: lês muitos autores, livros de todo o gênero. Tal disposição não indicaria irresolução e certa falta de sossego? Vivamos na intimidade dos mestres escolhidos; alimentemo-nos do seu gênio e quanto deles extrairmos se conservará fielmente em nossa alma”; “Abundância de livros, perplexidade para o espírito. Dessarte, já que não estás em condição de ler todos os livros que possas ter, contenta-te em ter apenas os que possas ler.”
Vives: “Se queres aprender algo, lê-o de noite, quatro ou cinco vezes, com grandíssima atenção, e pergunta-o de manhã, à memória”; “Quando vos fordes deitar, lede ou ouvi alguma coisa que mereça ser recordada, e com a qual podereis sonhar com prazer e com proveito, para que, mesmo dormindo, entre sonhos aprendais e melhoreis.”
Montaigne: “E se sou homem de alguma leitura, sou-o também de nenhuma memória”; “Quando encontro alguma dificuldade no curso da leitura, não fico a roer as unhas: passo adiante, depois de ter feito uma ou duas tentativas de resolvê-la.”
Francis Bacon: “Não leiais para refutar ou contradizer, para aceitar ou aquiescer, para perorar ou discursar, mas para ponderar e considerar”; “Certos livros devem ser provados; outros engolidos; uns poucos mastigados e digeridos”; “Devemos ler certos livros apenas parceladamente; outros incuriosamente; e uns poucos da primeira à última página, com diligência e atenção.”
Fritz
O desenhista André Só criou o mascote da coleção Socrácia, o porco-espinho Fritz.

Onde encontrar
Os títulos da casa matinas podem ser encontrados no site da editora (www.casamatinas.com.br) e/ou na Estante Virtual e Amazon, bem como em todas as plataformas de venda online de livros.
Expediente: Livros Imperecíveis, a newsletter da casa matinas. Maio, outono de 2026. 18ª edição. Escrito por Matinas Suzuki Jr., editado por Comunica PR, direção de arte por Amanda Piva.



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