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Louvemos o enormíssimo homem literário José Paulo Paes, no seu centenário de nascimento

José Paulo Paes, em desenho de Rubens Matuck, de 1988.
José Paulo Paes, em desenho de Rubens Matuck, de 1988.

Nas palavras de Davi Arrigucci Jr., o nosso crítico maior de poesia, a obra poética de José Paulo Paes parece formar um “cancioneiro da vida toda de um homem que respondeu com poemas aos apelos do mundo e da sua existência interior.”


Prosas


ESCOLHA DE TÚMULO


Onde os cavalos do sono

batem cascos matinais.


Onde o mundo se entreabre

em casa, pomar e galo.


Onde ao espelho duplicam-se

a anêmonas do pranto.


Onde um lúcido menino

propõe uma nova infância.


Ali repousa o poeta.


Ali um voo termina.

outro voo se inicia.


(José Paulo Paes)


Dúvida


A companheira Dora Costa encontrou no computador de José Paulo Paes um último poema, gravado às 17h09 do dia 8 de outubro de 1998 (ele morreria no dia seguinte, aos 72 anos):


DÚVIDA


Não há nada mais triste

do que um cão em guarda

ao cadáver do seu dono.


Eu não tenho cão.

Será que ainda estou vivo?

(José Paulo Paes)


Necessidade premente da Poesia


O amigo e enorme historiador da literatura brasileira Alfredo Bosi escreveu sobre sua relação com José Paulo Paes: “Presente, sempre, a crença comum na necessidade cada vez mais premente da Poesia que, no entanto, o seu estoico ceticismo sabia ser ‘voz clamante no deserto’ no meio da opulência obscena de signos e coisas sem sentido que atulham a cidade pós-moderna.”


Nem eu


ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA


a poesia está morta

mas juro que não fui eu

(José Paulo Paes)


Animal pedestre


Vilma Arêas, que organizou o seu armazém literário: “O resultado é que ninguém parece conhecer mais ou falar melhor de José Paulo Paes do que ele mesmo, com poucas fantasias e poucas ilusões a respeito do próprio trabalho. Considera-se um ‘animal pedestre’ e não se julga ‘com asas’ para a teorização.”


Livro dos provérbios


ÁLIBI


se os poetas não cantassem

o que teriam os filósofos a explicar?

(José Paulo Paes)


Um grande lascivo


Do amigo, discípulo e compartilhador de princípios Rodrigo Figueira Naves: “Se Zé Paulo era um homem discreto, era também, literalmente falando, um grande lascivo. Que o digam suas traduções de Aretino, sua antologia de poesia erótica e tantas outras devassidões. As palavras pertenciam a outros, mas era ele que as escolhia para traduzir”.


Sonetos luxuriosos


“Que mal haverá em contemplar um homem a possuir uma mulher? Serão os animais mais livres do que nós? Não é mister ocultar órgãos que engendram tantas criaturas belas. Seria antes mister ocultar nossas mãos, que nos dissipam o dinheiro, fazem juramentos falsos, emprestam a juros usurários, torturam a alma, ferem e matam.” (Pietro Aretino, carta sobre os Sonetos, tradução de José Paulo Paes)


Límpida e concisa


O também tradutor e poeta Ivan Junqueira falando sobre os perigos da poesia escreveu sobre a prosa de José Paulo Paes: “Uma prosa límpida, concisa e elegante que somente os poetas, como disse certa vez Fernando Pessoa, sabem escrever.”


Batalha de Itararé


“Do surrealismo literário no Brasil quase se poderia dizer o mesmo que da batalha de Itararé: não houve. E não houve, explica-se uma frase de espírito hoje em domínio público, porque desde sempre fomos um país surrealista.” (José Paulo Paes)


Resumé


Sua lista (por certo incompleta) de livros publicado tem quase 70 títulos dedicados à poesia, à tradução, aos livros infantis, aos ensaios, à crítica, aos perfis de autores; além dessas publicações, foi editor de livros exemplar e se dedicou à colaboração assídua com publicações literárias, à orientação de jovens poetas, escritores, críticos, pesquisadores, editores e jornalistas.


O primeiro leitor


Seu discípulo e seu editor Luiz Schwarcz: “Na época da intensa amizade que mantive com José Paulo Paes, eu não vislumbrei a dúvida que só me ocorre agora, ao escrever: será que somos todo assim, esculpidos por muitos pais, que entram ao acaso em nossa vida?”


Intraduzindo


José Paulo Paes não só traduziu, como deu aula de tradução e se preocupava com a história da tradução no país. Citava Osman Lins, que dizia que “necessita o escritor brasileiro do convívio com outras literaturas” e que “produz melhor resultado quando o escritor dispõe de um número apreciável de obras bem traduzidas (...) porque o contato com o texto traduzido—e a tradução tende a exercer pressões renovadoras sobre as estruturas linguísticas do país receptor—permite uma fruição mais ágil, tendo ainda a vantagem de manter o fruidor de uma obra alienígena em contato com a sua própria língua.”


José Paulo Paes: “Uma história da tradução no Brasil deveria ser não um mero catálogo de títulos, mas um catálogo seletivo, raisonné, em que fosse feita a indispensável distinção crítica entre boas e más versões. Deveria ela também considerar em separado cada língua ou literatura, indicando quais dos seus textos mais importantes já se acham vertidos, a fim de se ter uma medida do conhecimento de cada literatura possibilitando, por via tradutória, ao leitor brasileiro.”






O poema (O ovo), de Símias de Rodes, poeta do período Helenístico, traduzido por José Paulo Paes.
O poema (O ovo), de Símias de Rodes, poeta do período Helenístico, traduzido por José Paulo Paes.

Nascido em Taquaritinga, interior de São Paulo, autodidata, “intraduziu”, traduziu e introduziu no português brasileiros poetas até então desconhecidos como o americano Alfred Kreymgorg (“Quem fez Deus, senhor?”), e os neogregos como Kostas Karyotákis (“Arte de modéstia sem igual,/ quão devagar tua lição aprendo!”), Nikita Rándos ou Kálas (“Perco-me na multidão, reencontro-me a mim mesmo/ nas artérias de Babilônia/ na palma do futuro”) e Giórgio Seféris (“Conforme os anos passam,/ multiplicam-se os juízes que te julgam;/ conforme os anos passam, com menos vozes dialogas”).


Uma lista (incompleta; “o que cito é representativo daquilo que esqueço de citar”, uma frase de Remy de Gourmont que JPP gostava de citar) dos poetas traduzidos, além dos mencionados nesta carta de notícias: Agastia Escolástico, Anacreonte, Alceu de Messênia, Asclepíades, Baudelaire, Catulo, Crinagoras, Damásquio Filósofo, Edward Lear, Filodemo, Goethe, Gregório o Teólogo, Hölderlin, Konstantinos Kaváfis, Lucílio, Lewis Carrol, Macedônio Consul, Marco Argentário, Nikos Kazantzákis, Ovídio, Paladas de Alexandria, Paulo Éluard, Paulo Silenciário, Rimbaud, Rufino, Safo, Símias de Rodes, Verlaine, W.H. Auden...


E ele ainda traduziu também romances, contos, filosofia, ensaios.


O médico poeta


William Carlos Williams em 1930, traduzido por José Paulo Paes:


O ESTUPRADOR DE PASSENACK


Foi muito gentil. Quando ela voltou

a si, ele disse: Está tudo bem, garota,

eu cuidei de você.


Ela toda descomposta. Ela acrescen-

tou

agora você não me esquece mais. De

carro

a levou para casa.


Só mesmo um tarado, disse ela

faria uma coisa destas.

Pois tem de ser.


Ninguém que não fosse doente seria

tão doido e tão cruel assim. Ele quis

prejudicar

uma outra pessoa —

para se justificar. Mas se eu tiver

doença venérea por causa disto.

não quero ser tratada.


Eu me recuso. Vão me achar morta

na cama, em vez. Por que não? Foi

isso que ela falou.


Se eu pudesse dar um tiro nele. Que

tal conhecer uma assassina?

Bem que eu sou capaz.


Vou ficar sabendo até o fim da

semana.

Eu não gritaria. Mordi ele

uma porção de vezes


mas ele era forte demais pra mim.

Ainda não consigo entender. Não

costumo desmaiar assim tão fácil.


Quando voltei a mim e percebi

o que tinha acontecido só pude

rogar uma praga


E xingar ele de todos os nomes feios

que lembrava. Eu estava tão feliz

de poder voltar para casa.


Acho que é a preocupação — o medo

de pegar doença. Mil vezes preferível

eu ficar grávida.


Mas é a imundície de tudo que não

pode

ser curada. E ódio, ódio de todos os

homens

— e nojo.


Infantil


Vamos brincar de poesia?


100


No dia 22 de julho comemora-se o centenário de nascimento do enormíssimo José Paulo Paes. Em comemoração, a casa matinas está lançando a coleção grampo, uma plaquete de 10 X 15 cm, grampeada, com duas traduções dele: Dos livros, de Michel de Montaigne, e A confiança em si próprio, de Ralph Waldo Emerson.


Capa dos livros "Dos livros" e "A confiança em si próprio", da editora casa matinas

Capas dos livros "Histórias humanas" e "A arte de viver ensinada pelos clássicos", da editora casa matinas

Onde encontrar

Compre nossos livros em casamatinas.com.br, na ESTANTE VIRTUAL ou nas demais plataformas de vendas online de livros. Em São Paulo, nossos livros podem ser comprados na Livraria Simples (Rua Rocha. 259, Bixiga)


Expediente: Livros Imperecíveis, a newsletter da casa matinas. Julho, inverno de 2026. 20ª edição. Escrito por Matinas Suzuki Jr., editado por Comunica PR, direção de arte por Amanda Piva.


 
 
 

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