Montaigne: livros, biblioteca, amizade e Marie de Gournay

Michel de Montaigne herdou a biblioteca do amigo Étienne de La Boétie, o autor do Discurso da servidão voluntária (teve uma ótima e influente tradução de Laymmert Garcia dos Santos para a editora Brasiliense, no início dos 1980). A morte de La Boétie, aos 32 anos, marcou decisivamente a virada na vida intelectual do homem que consolidou o gênero poroso (para usar uma palavra do vocabulário corrente) que chamou de ensaio; sua relação com os livros, portanto, estava espargida pelo sentimento de amizade.
Montaigne instalou a biblioteca no terceiro andar da torre (que ainda está preservada em Dordogne, sudoeste da França; já seu castelo original foi destruído por incêndio, em 1885) onde se refugiava e de onde, pelas três janelas da edificação, podia meditar observando a grande propriedade que herdou do pai. Entre as inscrições que colocou na biblioteca, lia-se esta, de reconhecimento a La Boétie: “Privado do amigo mais suave, o mais caro e o mais íntimo, e tal que nosso século não viu melhor, mais douto, mais agradável e mais perfeito, Michel de Montaigne, querendo consagrar a lembrança desse mútuo amor por um testemunho único de seu reconhecimento, e não podendo fazê-lo de maneira que o exprimisse melhor, consagra esta memória esse estudioso aparelho de que faz suas delícias.”
Há encanto especial nessa intimidade entre os livros e a afeição por um amigo. Em 1986, no memorável seminário Os sentidos da paixão, promovido pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Funarte, Sérgio Cardoso, professor de filosofia da USP, deu uma aula sobre a amizade entre Montaigne e La Boétie que se tornou referência (“Liberdade: a amizade em Montaigne”; pode ser lida gratuitamente no canal Artepensamento, hospedado no site do Instituto Moreira Salles).
Nela, Cardoso mostra a diferença do significado da amizade descrita no famoso capitulo 28 do primeiro volume dos Ensaios daquelas que emanam dos textos clássicos sobre o tema: “Os discursos que a Antiguidade deixou sobre este assunto me parecem frouxos perto do sentimento que tenho”, diz Montaigne. Entre os livros que o amigo lhe deixou, foi gestando o gênero que revolucionaria para sempre o pensamento e a forma da escrita moderna, sendo a amizade um conceito montaigniano fundamental. Sem ela, talvez os ensaios não tivessem nascido.
A biblioteca
Estima-se que Montaigne tivesse cerca de mil títulos (incluindo os que herdou de La Boétie) no terceiro andar de sua torre. Sarah Bakewell (Como viver, Objetiva, 2012) afirma que ele leu quase tudo. Seu “covil” — o recanto onde se subtraia da “comunidade conjugal e filial” — tinha uma área livre de dezesseis passos de diâmetro e formato circular, “que me permite ver todos os livros dispostos em cinco filas de prateleiras”. Infeliz do homem que não dispusesse de um lugar para “se isolar em sua própria casa, onde se esconder para meditar”, ainda que a torre tivesse o inconveniente de ser o lugar, entre todos do castelo, onde mais ventava. Montaigne lia e escrevia (não foi um autor profícuo: produziu cerca de mil páginas em vinte anos — mas, segundo consta, as reescrevia assiduamente) somente até sol se pôr; ao ler, costumava colocar uma placa de vidro sobre as páginas, para atenuar o reflexo da brancura do papel nos seus olhos.
A ideia do intelectual na torre de marfim não nasceu com ele, mas foi uma das pessoas mais próximas dessa classificação, guardada a substituição do marfim pela pedra calcária. Bakewell afirma que a tendência de se ter uma biblioteca privada como um lugar de refúgio havia começado pelos ricaços na Itália, no século XV, e lentamente se espalhado pela França no século seguinte. Montaigne acompanhou a moda.
Ele acomodava muita coisa ali: quadros, objetos de valor histórico, relíquias da família como uma espada e as bengalas do pai, uma coleção de objetos sul-americanos, estatuetas, vasos, amuletos etc. O teto e a parede eram cobertos de pinturas e em uma das inscrições que mandou colocar nas vigas lê-se o aforisma de Sófocles: “Não há vida mais bela que a de um homem despreocupado.”
A torre sobreviveu, mas os livros da bibliotecas se dispersaram. Hoje, uma centena deles, contendo suas anotações, são certificados como tendo pertencido a Montaigne. Sabe-se que a biblioteca continha um exemplar da Histoire d’um voyage fait en la terre du Brésil — autrement dite Amérique, de 1578, escrito pelo pastor calvinista Jean de Léry, que integrou a expedição de Villegainon (não nos esqueçamos do interesse de Montaigne pelos tupinambás, manifesto no ensaio Dos canibais).
A maior parte dos volumes remanescentes se encontra na biblioteca municipal de Bordeaux, que é seguida, em quantidade de títulos, pela Biblioteca Nacional de Paris; a biblioteca da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, orgulha-se de ter dez exemplares do acervo pessoal do filósofo, incluindo uma cópia de De rerum natura, de Lucrécio, e um conjunto de edições dos Ensaios, entre elas a primeira edição de 1580.
Fille d’alliance
Na tradição filosófica, a amizade era um sentimento de homens entre homens — algo que soa incômodo agora que a masculinidade encontra-se na oficina para reparos necessários e urgentes. “O mais alto ponto de perfeição na sociedade”, como escreveu Montaigne, não seria atingível pela amizade com as mulheres: “Nossa afeição pelas mulheres, embora proveniente de nossa escolha, não poderia comparar-se à amizade nem substituí-la”.
Apesar do ideário masculino em que está inserido, é impossível falar de Montaigne & livros & amizade sem chamar ao palco a figura fortíssima de uma mulher: Marie le Jars de Gournay, que ele tratou como sua fille d’alliance (filha adotiva; Montaigne teve seis filhas e filhos no casamento, mas apenas uma, Leonora, sobreviveu à infância).

Montaigne começou sua colaboração com ela quatro anos antes de morrer. Depois da sua morte, em 1592, a viúva Françoise de la Chassaigne enviou para Gournay a edição de 1588 dos Ensaios, cheia de correções e acréscimos que o marido fizera (muitas dessas alterações contaram, inclusive, com a colaboração dela). A amiga de Montaigne mergulhou no trabalho e organizou a decisiva edição de 1595, repondo trechos cortados pelos editores que a antecederam — incluindo passagens sobre temas femininos — e introduzindo um longo prefácio em defesa dos ensaios.
Poeta, romancista, tradutora, ensaista e editora, autodidata que aprendeu grego e latim sozinha, Marie de Gournay, no final do século XVI, era uma mulher que tentava viver — certamente com muitas dificuldades e enfrentando muita maledicência — do seu trabalho independente no mundo das letras (ela vinha de família de alguma posse, mas ao contrário de Montaigne, não era rica).
Segundo Sarah Bakewell, a edição dos Ensaios de Maire de Gournay foi a dominante por três séculos; caiu em desuso quando foi descoberta, no final do século XVIII, uma outra edição de 1588, com “cerrada anotação manuscrita do próprio Montaigne e também de secretários e assistentes”. A partir do final do século XIX, este “exemplar de Bordeaux” passou a ser adotado como a referência, até que, em 2007, uma nova edição da Pléiade retomou o prestígio da edição de 1595 feita pela fille d’alliance, reavivando a disputa entre os montaignistas sobre qual a versão é a mais fiel às anotações deixadas pelo autor ao morrer. (A tradução dos ensaios selecionados feita por Rosa Freire de Aguiar para a Penguin-Companhia baseou-se nesta edição da Pléiade).
A reputação de Marie de Gournay vem crescendo nas últimas décadas. Na última edição dos Cadernos de Ética e Filosofia Política (acessível no Portal e Revistas da USP), dedicado a Montaigne, Natanailtom de Santana Morador publicou o trabalho “Marie de Gournay e Montaigne: a possibilidade da ‘santa amizade’ entre os sexos”, em que diz que ela “esboça a ideia central e radical de ‘que por necessidade os grandes espíritos e as pessoas de bem buscam seus semelhantes’, assinalando que o encontro dela com Montaigne era signo de dois espíritos iguais que, por necessidade, se procuravam, assim como se deu entre La Boétie e Montaigne.”
Não era uma posição inocente: Marie de Gournay partia da consciência do alinhamento do mestre com a tradição de superioridade da amizade masculina (“a inteligência, o bom senso, a amizade são qualidades mais comuns aos homens, por isso eles governam o mundo”), para reafirmar sua paridade de mulher — e bem mais jovem — na relação com ele.
Território de mulheres
Montaigne era lido por mulheres e se correspondia com elas, mas deixava sua ideia da superioridade masculina escorrer também para os livros e para a leitura. No ensaio Da companhia dos homens, das mulheres e dos livros, observa que a leitura da poesia é adequada à mulher porque “é uma distração adequada à sua necessidade: é uma arte frívola, e sutil e fantasiada, toda de palavras, toda de prazer, toda de exibição, como elas são.”
É difícil se estabelecer uma linha imaginária que demarque nitidamente a zona onde o anacronismo é inaceitável e a zona onde começa a admissibilidade do pensamento contemporâneo para se julgar ideias de cinco séculos atrás. Montaigne é sempre contraditório, o que complica ainda mais as coisas: participa da visão da superioridade masculina, mas há rachaduras nas suas ideias: “As mulheres não estão erradas quando recusam as regras de vida que se introduzem no mundo, porquanto foram os homens que as fizeram sem elas”, escreveu no longo ensaio em que reflete sobre o sexo e suas tentações para homens e mulheres (Sobre os versos de Virgílio).
Maria Célia da Veiga França, no texto “Montaigne e a natureza humana no feminino” (acessível no Scielo.br), diz, sem negar sua “visão predominante e conservadora sobre a mulher”, que o filósofo “se distancia claramente de sua época, propondo a ideia bastante radical da igualdade de natureza entre os gêneros feminino e masculino”.
A História, esta bruxa irônica, aprontou uma de suas boas: Montaigne, hoje, teria de se ajustar a uma época (que tanto influenciou) em que o livro se tornou território de mulheres, que muitas vezes organizam suas pautas a partir ou por meio deles. Não nos esqueçamos de que os clubes de leitura, que se proliferaram tanto e em torno dos mais variados assuntos, são majoritariamente associações entre mulheres.
Dos livros
Montaigne (que foi alfabetizado em latim; brincava que quando dizia um “ai”, dizia-o em latim) começou pegando pesado já na infância: leu as Metamorfoses, de Ovídio, entre os 7 e 8 anos; logo depois, devorou a Eneida, de Virgílio. Na maturidade intelectual, as Cartas a Lucílio, de Sêneca, eram uma de suas leituras favoritas.
O estoico tinha suas opiniões particulares sobre a leitura. Escreveu a Lucílio frases como “lês muitos autores, livros de todo gênero. Tal disposição não indicaria irresolução e certa falta de sossego?” Uma planta constantemente transplantada não tem vigor: “Abundância de livros, perplexidade para o espírito. Dessarte, já que não estás em condição de ler todos os livro que possas ter, contenta-te em ter apenas os que possas ler.”
Seu discípulo renascentista diria que não se apegava muito aos novos autores, “porquanto os antigos me parecem mais ricos e mais fortes”. Montaigne distribuiu sua visão sobre os livros por diversos ensaios; em um deles, declarou: “Não os uso muito mais do que os não os têm; gozo deles como o avarento goza seu tesouro, simplesmente com saber que posso usá-los quando queira. Este direito de posse, basta a meu espírito”.
Como de hábito, seu pensamento vai ziguezagueando. Zigue: “[Os livros] constituem a melhor provisão que pude obter para essa viagem que é a vida e tenho realmente pena das pessoas inteligentes que não os possuem.” Zague: “Por vaidade gastei muito com livros, não somente para prover minhas necessidades, mas ainda para ver aumentar o número de volumes e ampliar-se a minha biblioteca.”
O ensaio Dos livros — que está sendo lançado pela casa matinas como uma plaquete de 10 X 15 cm, na nova coleção Grampo — não está no cânone dos especialistas em Montaigne como um dos mais importantes ou influentes que escreveu. Por isso, é intrigante que José Paulo Paes tenha escolhido justamente este texto para traduzir, entre os 107 que compõem os três volumes dos Ensaios. (Originalmente, a tradução apareceu no volume A arte de viver ensinada pelos clássicos, também reeditado pela casa matinas).
Dos livros dedica-se menos às reflexões fundamentais sobre a vida (e morte: filosofar é se preparar para morrer) do que aos relatos dos hábitos e preferências de leitura de Montaigne. Mas talvez esteja aí a explicação pela opção de Paes, um operário do universo literário, por este ensaio: seu interesse pela maneira de o filósofo se relacionar com os livros — sem método, sem disciplina e sem preocupação de memorizar o que lia, folheando um exemplar aqui outro acolá, interrompendo a leitura sempre que alguma página ameaçava entediá-lo — revelaria algo da própria atitude do tradutor como um homem de letras distanciado das falsas erudições e das pompas do conhecimento.
O tradutor se identifica com o traduzido e os dois acertam os ponteiros no reconhecimento de que “a própria ignorância é um dos mais belos e seguros testemunhos de juízo” na república das letras.
Fazedor de livros
Em um ensaio memorável, o enormíssimo Erich Auerbach, afirma que Montaigne foi o primeiro fazedor de livros, como o concebemos modernamente: “nem poeta, nem erudito, mas autor de livros: escritor.” Ninguém, nem mesmo o filósofo em sua torre, supunha que haveria leitores para o que escrevia — pois escrevia para satisfazer-se, como se estivesse tirando uma imensa selfie com a câmera do celular voltada para sua própria alma. “Esse homem independente e sem profissão criou assim uma nova profissão e uma nova categoria social: o homme de lettres ou écrivan, o leigo na condição de escritor.”
É difícil resistir à tentação de lembrar que, pelo lado das mulheres, Marie de Gournay, a jovem amiga de Montaigne, também ajudou a criar esta nova profissão.

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