Alugam-se penas. Pagamento: pretos escravizados
- casamatinas
- 23 de out. de 2025
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Atualizado: 10 de dez. de 2025

Em 25 de maio de 1855, parlamentares do Império ouviram, entre risos, “um dos mais singulares e comoventes discursos que se encontram nos anais”, como comentou Joaquim Nabuco em seu relato do episódio.
O centro das atenções era Justiniano José da Rocha, que naquele ano lançou o panfleto Ação; reação; transação — duas palavras acerca da atualidade política do Brasil, relançado pela editora da USP em 2016. “O Rocha” era homem público (advogado, jornalista, político) de “ruidosa notoriedade”, a ponto de ser rememorado, década depois, no conto O programa, de Machado de Assis, e de ser saudado como “o maior dos nossos jornalistas”.
Enquanto a hilaridade dava o tom na plateia, Justiniano José da Rocha ia às lágrimas na tribuna, confessando na mais alta câmara do país que alugava a sua pena por necessidade de uma família grande (Deus abençoou “o meu consórcio com numerosa prole”) e que sua mulher só havia comprado um vestido de seda em 1848. É bom notar que Joaquim Nabuco não dá exclusividade ao caso Rocha, ele menciona também a existência de recibos de jornalistas nos diversos ministérios aos quais seu pai pertencera durante o Império — e que o Marquês de Paraná foi outro a admitir a prática de suborno da imprensa em seu gabinete.
Primeira caricatura
Mas, mesmo antes do vexame na tribuna do Parlamento, a venalidade de Justiniano José da Rocha já era de voz corrente na alma encantadora das ruas do Rio de Janeiro, a ponto de aquela que é considerada como a primeira charge política publicada no país, uma litografia de 14 de dezembro 1837 com o título A campainha e o cujo, atribuída a Manuel Araújo de Porto-Alegre, ter tematizado a aceitação de suborno quando ele emprestava sua pena, por salário (literalmente) régio, ao Correio Oficial.
Além de receber o pagamento espúrio no formato convencional das moedas retinintes, já em si infâmia bastante, pois era dinheiro público usado para fins privados, o mais abominoso, abjeto e ignóbil, o adicionar horror ao opróbrio, algo que perturba a consciência do jornalismo até hoje só em se pensar que esta possibilidade existiu no passado, é a outra espécie de suborno que recebia (e, pelo jeito, não só ele): em pessoas pretas escravizadas (“de abusiva propriedade do Estado, que em vez de liberá-los, dele[a]s se apoderava na repressão ao tráfico africano”, como afirma Elmano Cardim, biógrafo de Rocha) dadas em pagamento pelo apoio de jornalistas venais aos gabinetes ministeriais.
“O ministro chamou imediatamente o oficial de gabinete, e disse-lhe: ‘lance na lista um africano para o sr. Rocha, um para Fulano...’”, confessou na tribuna. Existe o registro de uma carta em que J.J. Rocha, como também era conhecido, reclamava de ter pedido “dois africanos” ao Ministério, que tanto apoiara, e não ter recebido nenhum, enquanto um jornalista de oposição pedira quatro negros e os ganhara; nos arquivos do ministério da Guerra, seu biógrafo encontrou um documento mostrando o jornalista ter trocado “uma africana que se dera ‘em viciosa’ por outra pertencente à nação”, e um “molecão” por duas meninas pretas.
Paguei, não nego
Em 1908, o segundo presidente civil da República, Campos Sales (1898-1902), um dos filhos diletos do republicanismo paulista, lançou o livro de memórias Da propaganda a presidência, impresso em A Editora, em Lisboa (tem o jeito de ter sido uma “autopublicação”, como se diria hoje).
Há no livro um capítulo sobre a imprensa, que se abre com uma história interessante. Ao chegar ao Brasil, ainda no Império, o argentino Marco Avellaneda se espantou: ele descobria um país de partidos sem jornal e jornais sem partido — o que à época era, ao contrário de hoje, considerado ruim, pois jornais sem partido, numa época em que o jornalismo era mais feito de opiniões do que de fatos, não teriam fidelidade a suas posições e se venderiam mais facilmente para qualquer lado.
Sales se empenha em justificar (o vocabulário atual usaria o verbo “naturalizar”, sempre à mão para qualquer ocasião) a prática de governantes pagar sorrateiramente pelo apoio de jornais porque 1) era uma prática comum desde o Império e 2) sem essa prática era impossível governar, uma vez que a imprensa agiria para “criar falsas correntes de opinião”, em vez de noticiar fatos gerados pelos governos — e muito menos ser compreensiva com as intenções dos governantes.
Por falta de apoio, ele pagou, sim, não negava, mas não foi tanto quanto falavam (mais ou menos um conto de réis, que ele admitia, contra oito mil contos de réis, que era o que diziam os opositores, entre eles Rui Barbosa), como se a questão fosse de métrica e não de moralidade.
Década republicana
Quando a nossa República fez dez anos, um grupo de ainda ativos monarquistas resolveu fazer um balanço da experiência do Novo Regime e lançou uma coleção de 8 volumes sob o título de A década colonial, que se esgotou “promptamente” e teve uma segunda edição, em 1902, impressos na casa Laemmert e lançados pela Companhia Typographica do Brazil.
Coube a um dos mais conhecidos jornalistas da época, o carioca Carlos Maximiano Pimenta de Laet — uma das línguas mais pontiagudas (para o historiador da imprensa, Nelson Werneck Sodré, ele era “argumentador ágil e corrosivo”) a misturar fel na tinta das folhas da Capital Federal — fazer o balanço da imprensa na primeira década republicana. Laet foi dono de uma das colunas mais longevas do jornalismo brasileiro, a “Microcosmo”, e seu entusiasmo por uma polêmica era tão intenso que, depois da sua morte, o crítico literário Agripino Grieco disse que ele encerrara a sua “fábrica de venenos”.
Catolicíssimo e fiel a Pedro II até o fim de seus dias nos últimos anos da Primeira República, Carlos de Laet enumera atos de censura e de atentados dos quatro governos republicanos até então (Deodoro: “brutalidade”; Floriano: “hipocrisia e sangue”; Prudente de Morais: “pusilânime condescendência”; Campos Sales: “corrupção e aviltamento”) contra a imprensa monarquista que teimava em remanescer, não só no Rio, mas em vários pontos do país.
A tese de Laet era a de que os jornalistas gozaram de uma liberdade inusitada no país durante o fim do Império, liberdade que foi suprimida no Novo Regime (“aplicou-se à nação um grande emplastro adesivo”). O diálogo que ele trava, na véspera do Natal de 1889, enquanto redator da Tribuna Liberal, com o ministro Quintino Bocaiúva, levando este a admitir que o decreto do dia anterior do governo provisório de Deodoro estabelecia a censura, é uma das grandes peças da história das restrições à liberdade de imprensa no país.
Nobre filha de Gutenberg
A casa matinas iniciou seus serviços editoriais relançando livros imperecíveis de e sobre o jornalismo brasileiro. Em nome da importância cada vez maior, por um lado, de se avançar e ampliar o jornalismo no país nas mais diferentes plataformas (incluído os livros), e, por outro, de se conhecer cada vez mais a história da imprensa, coisas indissolúveis, esta casa fez uma edição do texto de Carlos de Laet, pela primeira vez autônoma em livro (até agora ele só era acessível como capítulo no segundo volume dos oito da coleção A década republicana). Há um longo e estimulante legado de reflexão sobre a imprensa (“a nobre filha de Gutenberg”, como dizia Laet) no Brasil que precisa se restabelecido.
Como bônus track deste singelo volume, foi incluída uma conferência de Laet, de 1902, sob o título Sobre a tirania da imprensa, que aborda o ponto de vista não do Estado e nem do jornalista, mas o do cidadão, em situação de vulnerabilidade diante do poder de corrosão da honra e da privacidade pelos jornais (e Laet nem podia imaginar a sumaridade dos ritos futuros de destruição avassaladora da intimidade e da exterioridade da pessoa promovidos pela distopia das redes sociais).
Umas das constantes pinimbas de Carlos de Laet era com seu contemporâneo Rui Barbosa. Para horror deste, questionava seu conhecimento sobre as alocações pronominais e, ironizando as conferências de várias horas a fio proferidas pelo baiano, dizia que em uma palestra de Rui sobre o autor do Lusíadas “às quatro horas da madrugada, com grande alívio do auditório, morria Camões”.
Pois a corrupção na imprensa, o crime de “leso-civismo”, foi o tema de uma das mais importantes conferências de Rui Barbosa, que se tornou reflexão clássica sobre o jornalismo no Brasil. A conferência saiu em livro em 1920, com o título de A imprensa e o dever da verdade (também reeditado agora pela casa matinas), e é um dos textos sobre jornalismo mais lidos e mais citados entre pesquisadores, historiadores, juristas e jornalistas.
Mui muito muitíssimo
Segundo Rui, a pena de aluguel é uma “praga pública, de cuja existência todos sabem, todos se lastimam, todos se aterram, mas na qual poucos ousam pôr a boca”. Os corruptores de alma, na reluzente retórica barbosiana, “vão eles mui muito muitíssimo mais longe, entregando-se de bandeiras despregadas a esse descaradíssimo, nojosíssimo e perniciosíssimo sistema de falsificação em aberta orgia”. A corrupção da imprensa é marca de regressão de uma sociedade: “um país de imprensa degenerada ou degenerescente é, portanto, um país cego e um país miasmado, um país de ideias falsas e sentimentos pervertidos, um país, que, explorado na sua consciência, não poderá lutar com os vícios, que lhe exploram as instituições”.
Mais importante advogado do país a seu tempo, primeiro-ministro da Fazenda republicano, redator da primeira Constituição republicana, quatro vezes (duas oficiais) candidato a presidente da República, quatro vezes derrotado, tribuno consagrado, Rui se considerava sobretudo jornalista (“a mais nobre das profissões”), e deixou nos anais do Congresso vária documentação sobre casos de corrupção da imprensa.
Em A imprensa e o dever da verdade, ele mostra que acompanhava o jornalismo na Europa e nos EUA — menciona, por exemplo, o importante caso da cobertura da guerra da Crimeia pelo Times, de Londres, que manteve a independência dos despachos de William Howard Russel, o primeiro correspondente de guerra moderno, mesmo sob acirrada pressão do exército britânico (as instruções que recebeu de seu editor, John Delane, eram as de falar “a verdade, sem indulgência, nem receio”; o Times não admitia “véus”).
Gay Talese, que teve o seu último livro, Bartebly e eu, recentemente lançado pela coleção Jornalismo Literário, da Companhia das Letras, costuma dizer em suas entrevistas, como mostra o posfácio de Lúcia Guimarães, que em uma roda de pessoas as mais interessadas na verdade são provavelmente jornalistas — mesmo se levarmos em consideração a galática lavanderia de roupa suja que essa profissão tem na sua atmosfera. Por mais meramente empírica que seja, e por mais que os exemplos contrários sejam bem visíveis, há um quê de singela lidimidade nessa observação de Talese. Em um mundo onde a mentira assumiu o papel de principal atributo nas relações humanas, aspirar à verdade não é pouca coisa.
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— Os ingleses dizem que foi o magnata da imprensa Alfred Harmsworh, no século XIX. Os americanos dizem que foi um dos editores (John Bogart, mais citado, ou Charles Dana) do mitológico The New York Sun. Talvez não tenha sido nenhum nem outro, mas a frase (soa melhor em inglês) “quando o cachorro morde o homem não é notícia; quando o homem morde o cachorro, é notícia” inspirou o título da coleção de jornalismo da casa matinas, “Homem morde o cachorro”.
— As quarta-capas do projeto gráfico da casa matinas, em desenho com economia máxima de elementos concebido por Amanda Piva, pedem uma foto, de preferência, fotojornalismo. No livro de Carlo de Laet, a fotografia da quarta capa é Vendedores de jornais no Rio de Janeiro em 1899 (ano da primeira edição do texto), de Gomes Junior, pertencente à coleção de Gilberto Chateaubriand que se encontra no Instituto Moreira Salles. No livro de Rui Barbosa, a fotografia é Menino jornaleiro vendendo jornais na praça Tiradentes, em 1924 (quatro anos após a publicação do texto), de Augusto Malta, também do acervo do IMS. A casa matinas agradece ao IMS pelo apoio na identificação e utilização das fotos.
— Esta carta de notícias Livros Imperecíveis se interessa por livros perenes em geral, não só os editados pela casa matinas. Quando fala dos livros da casa, há menção explicita a esse fato, como nesta edição.
Expediente: Livros Imperecíveis, a newsletter da casa matinas. Outubro, primavera de 2025. 10ª edição. Escrito por Matinas Suzuki Jr., editado por Luiza Nobre, diagramado por Amanda Piva
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