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O tropicalismo antes do tropicalismo na Bahia, o “bode” da contracultura na década de 1970, a primeira mulher eleita e as alegrias

Imagem de página corrompida da Navilouca com o poema visual ALFA-VELA-VILLE, com José Simão e Waly Salomão entre os que estavam segurando as letras, que foram criadas por Luciano Figueiredo e Oscar Ramos. As fotos são de Ivan Cardoso.
Imagem de página corrompida da Navilouca com o poema visual ALFA-VELA-VILLE, com José Simão e Waly Salomão entre os que estavam segurando as letras, que foram criadas por Luciano Figueiredo e Oscar Ramos. As fotos são de Ivan Cardoso.

“Eis que um Sol antigeografico tropicalista a boca-da-noite, bate na chapa na cidade.”

A anotação, em puro idioma marioandradês, está na entrada de 7 de dezembro de 1928 do diário que o escritor modernista foi escrevendo durante sua viagem aos Nordestes. A distinção entre o singular e o plural para designar a região à Este do Norte brasileiro é do próprio Mário de Andrade: nem turista e nem aprendiz, ele observou que há diferenças culturais, religiosas e de identidades nas populações dos estados que visitou no final da década de 1920.


André Botelho e Onildo Correa tiveram a argúcia de chamar de Nordestes o volume que organizaram para a casa matinas com os textos do diário que o autor de Macunaíma escreveu durante seus dias na região. Aos poucos, a ideia de que ela é plural e não uma monocultura foi amadurecendo nos estudos sociais e é uma felicidade que os organizadores tenham a chamado para a capa do livro.


Mas, e o termo “tropicalista” usado para falar de São Salvador já em 1928?

Sabíamos que o tropicalismo tem conexões com a Semana de 22 (mais com Oswald de Andrade do que com Mário, entretanto) e que, em parte, foi gestado na Bahia dos anos 1960. Mas não deixa de ser muito interessante que apareça, com força de um quase- conceito, na rápida passagem do escritor por Salvador, cidade que ele confessa que o atordoou. Um pouco antes, no mesmo diário, ele já havia usado “tropicalista” (mas mais como um adjetivo) para falar das mulheres cariocas, quando o navio Manaos, no qual viajava, atracou na Guanabara. O tropicalismo antes do tropicalismo.


A Tropicália!

Do tropicalismo da Bahia de 1928 para o de Londres na década de 1970. “Fiquei íntimo de Rose [uma prostituta negra]. Hélio [Oiticica], de Nova York, escreveu para o Waly: ‘Simão está andando com Rose, aprendendo altas malandragens.’ Waly me leu essa carta! Hélio foi a Londres. Por coincidência eu estava em Londres. Ele armou uma grande exposição na White Chapel Art Gallery! E ficávamos encostados na parede rindo do estranhamento dos ingleses pisando na areia, se perdendo nos penetráveis. A Tropicália!”


O recuerdo é de José Simão, que recolheu suas memórias de quarenta anos de intensa convivência pessoal e artística com Waly Sailormoon, como o poeta de Jequié (BA) se autodenominava na época em que se conheceram, lá no início dos contraculturais anos 1970. “A memória é uma ilha de edição”. O verso de Waly é a epígrafe do livro Waly Salomão é uma VOZ ALTA. No final de 2025, Simão, aos 80 anos, acordava às 5 da matina para atender ao pedido da casa matinas: escrever suas lembranças daquele que, se Júlio Cortázar o tivesse conhecido, não deixaria de o classificar como um “enormíssimo cronópio”.


A biografia de Waly, com começo, meio e fim, soa como uma ideia infrutífera: ele é imbiografável em sua imensidão multifacetária. Sua imagem será construída caleidoscopicamente pelos fragmentos — poeta da algaravia — de registros preciosos como o filme de Carlos Nader, Pan-cinema permanente (2008), um dos momentos mais inventivos do cinema brasileiro no século XXI.


A biografia de Waly Salomão é uma obra aberta sendo construída pelas lembranças, momentos, flashs, histórias, imagens, sons, falas, canções... que os que conviveram com ele forem dechavando para deixar uma imagem viva e ALTA, como quer Simão. Memórias do futuro, porque Waly tinha horror das coisas que dormem empoeiradas nas gavetas e prateleiras. Waly não cabe num volume. Nem em dois ou três. Por isso, as memórias de Simão são preciosas.


O Mário no armário

Durante muito tempo a USP prendeu Mário no armário. Quem insinuasse alguma coisa sobre o homossexualismo do escritor era fulminado com olhares e comentários reprovadores. Escrever sobre esse aspecto de sua vida, então, nem pensar.


Nas anotações de Nordestes, aparecem dois momentos homoeróticos: no primeiro, no dia 30 de novembro de 1928, ele vai se encontrar com o operário e comunista amigo de São Paulo, um certo José, “que me esperou só lá na esquina temendo de certo que as luzes do hotel sarapatassem de ver abraçando um homem pobre. Agora me arrasta pros lugares de menos gente e menos luz”... “Porêm agora é de comoção. Paramos junto do parapeito e uma onda geme de prazer nos vendo, recenchegada da Russia. Meu pensamento está confuso e muito rico”... “Voltamos tardonhos prás bandas do hotel.”


O outro momento é o encontro decisivo da viagem, em Natal, no dia 10 de janeiro de 1929, com o cantador Chico Antonio: “Estou divinizado por uma das comoções mais formidáveis da minha vida”. Nas palavras dos organizadores de Nordestes: “Encantando pelo encantador/cantador de cocos, a força contundente da atração homoerótica não substituiu, mas encaminhou e aguçou os canais da empatia. Mário viu na arte desse nordestino de 27 anos, já acabado em cachaça, analfabeto, um valor ‘sublime’... Mário via em Chico Antonio, porém, a expressão mais pura de uma musicalidade litorânea do Nordeste”.


O cantador potiguar Chico Antonio, que encantou Mário de Andrade.
O cantador potiguar Chico Antonio, que encantou Mário de Andrade.

Mário de Andrade diz no livro que o povo mais cantador do mundo é o nordestino.


O Super-8

Um arte-fato seminal dos 1970 foi Navilouca. A grande publicação da rotatória entre contracultura, poesia marginal, concretismo, neoconcretismo e tropicalismo. Editores? Waly Salomão e Torquato Neto, que ligou o gás antes de ver o bólido impresso — graças ao gênio do mercado fonográfico André Midani, que conseguiu que a Polygram bancasse os custos gráficos, em 1974. Os designers? Luciano Figueiredo e Oscar Ramos. Colaboradores? Lygia Clark, Hélio Oiticica, Rogério Duarte, Duda Machado, o trio concretistas (Augusto, Décio e Haroldo), Jorge Salomão, entre outros.


Obra única para a Navilouca é o poema “vivosual” armado na praia de Copacabana ALFA-VELA-VILLE, com as letras criadas pela dupla Luciano-Oscar. As fotos são de Ivan Cardoso, que registrou as imagens que preservaram para o futuro a força irrepresável daqueles momentos. Entre elas, a antológica foto da capa de Me segura qu’eu vou dar um troço, com Waly e Zé Simão segurando a faixa FA-TAL; a dupla de amigos moço-árabes Salomão e Simão reaparece no poema da praia de Copacabana, ao lado de amigos e amigas como Pinky Wainer, segurando as letras que compunham as três palavras que nasceram inspiradas no filme Alfaville, de Jean-Luc Godard. Mas agora, neste Waly Salomão é uma VOZ ALTA, que acaba de sair pela casa matinas, Simão conta que ALFA-VELA-VILLE nasceu de um projeto anterior, um filme de imagens em Super-8 (Simão comprou a câmera com a graninha que a família mandava de São Paulo) que Waly e ele rodaram no morro de São Carlos. Fragmentos dessas imagens preciosas podem ser vistos no Pan-cinema permanente.


Alzira Soriano

Na entrada de 4 de janeiro de 1929, em Natal, cidade que tanto encantou Mário de Andrade, ele anota um fato extraordinário para a história das mulheres não só nos Nordestes, mas em todo o país: “O prato do dia é a eleição duma mulher para prefeita do municipio de Lages, dona Alzira Soriano.” As mulheres só passaram a ter o direito de votar no Brasil três anos depois. Alzira Soriano, aos 32 anos, foi eleita prefeita da “moderna cidade de Lajes”, no Rio Grande do Norte. Como diria Ben Jor, “deu no New York Times”. Dentro do mais puro espírito federativo, o Estado, antecipando-se a todos os outros e à República, decretou em 25 de outubro de 1927 que todas e todos poderiam votar e ser votados sem distinção de sexo.


Como uma espécie de correspondente do Diário Nacional, de São Paulo, onde publicava as anotações da viagem, Mário de Andrade não só registrou o fato, como foi além, ao elogiar o discurso de posse da Alzira Soriano: “O discurso é um documento notavel que gostei muito. Não se trata de nenhuma peça oratoria sublime não. Pelo contrário: se percebe em toda a falação, que a prefeita se recusou sistematicamente a qualquer eloquencia e qualquer flor-de-retorica. Foi simples. Foi duma simplicidade admiravel, anti-masculina pela ausencia de brilho e anti-feminina pela ausencia de flores. E o que falou, falou com energia e clarividência.” E acrescentou que suas palavras anticorrupção não seriam usadas por nenhum político paulista. Nordeste, Nordestes.


O bode

André Botelho, coorganizador de Nordestes, também foi coorganizador (juntamente com Caroline Tresoldi), do livro Crítica e rebeldia: Heloisa Buarque de Hollanda no Jornal do Brasil (editora Bazar do Tempo). Na década de 1970, ao selecionar 26 poetas jovens, Helô mudou o panorama da poesia brasileira. Nos 80 (mais tarde, ela voltou a usar o seu sobrenome de solteira, Teixeira) fez uma colaboração regular no Jornal do Brasil, que os organizadores do livro definiram como “uma escrita pública interessada em perseguir o novo curso do seu próprio tempo, sem abdicar do rigor analítico.”


“Eu não me considero elemento da contracultura no Brasil, porque me considero um dos inventores dela”, diz Waly Salomão, um dos principais nomes que saem dos textos de Heloísa Teixeira. “O que resta daquilo tudo é o sentido da experimentalidade e é exatamente essa mesma experimentalidade que me faz abandonar essa trip. Para mim, é um capítulo belamente encerrado que deu tudo o que tinha que dar. As Dunas do Barato voaram. Foram um resultado de momento, do ‘bode’ político e social. As dunas funcionavam como uma operação ‘amarra bode.’”


O bode. No seu livro sobre Waly, Simão diz: “O bode pairava sobre nós da contracultura nos anos 70.” E explica: “Primeiro, imagine um bode. Segundo, imagine um bode instalado no seu cérebro. É um tipo de baixo astral mas é diferente, mais pesado. Acho que essa expressão começou com as drogas, quando a droga pegava mal, a pessoa dizia: ‘peguei um bode”’. E exemplifica: “Já vi Waly abatido quando a ditadura censurou o jornalzinho Flor do mal, que ele estava fazendo com Rogério Duarte. Aí sim. Eram três abatidos, Waly, eu e Rogério, sentados na grama do Aterro do Flamengo! Naquela época isso se chamava: bode!”


Alguém ainda há de escrever as páginas malditas do bode dos anos 1970, para que ele nunca mais volte para a sala.


A alegria

Mário de Andrade: “Meu amigo Baroncio Guerra, sertanejo de nascença, natalense de carnaval carioca, tipo acabado da alegria, dirige a felicidade com uma pericia incomparável.”
José Simão: “Como era uma alegria conviver com Waly. Como era uma alegria ficar horas no terraço conversando com Marta Braga, sua mulher. Em tudo! Ela incentivava e tomava conta da obra de Waly. Era uma loira lindíssima, carioca, alegre! Enfim, era a alegria que pairava sobre nós!”
Waly Salomão: “...não quero me atrapalhar em nada que atrapalhe a alegria de chegar a alegria e espalhar a alegria...”

A Feira do Livro

A estreia em eventos da casa matinas foi imensamente gratificante. Fomos recebidos com carinho pelas leitoras e leitores, pela organização d’A Feira (31/05-07/06), pelas demais editoras e editores. Agradecemos a todas e todos que foram visitar a nossa ilha na praça do Pacaembu.


Existem várias maneiras de se medir o êxito na participação de uma feira de livros. A maioria das editoras olha o número de exemplares vendidos. A casa matinas, dentro de seu projeto de evitar desperdícios e ter um modelo de negócios que contribua para a preservação ambiental, usa uma outra métrica: a proporção de exemplares de livros que voltaram da feira. Foi de 19,8%: de cada 5 exemplares que levamos, apenas um voltou. Isso significa que entre produção e vendas a relação foi bem ajustada, como pede a economia contemporânea. Participamos ativamente d’A Feira e demos a nossa contribuição ambiental. Viva!


Capas dos livros "Waly Salomão é uma voz alta" e "Nordestes", edições da casa matinas

Onde encontrar

Compre nossos livros em casamatinas.com.br, na ESTANTE VIRTUAL ou nas demais plataformas de vendas online de livros. Em São Paulo, nossos livros podem ser comprados na Livraria Simples (Rua Rocha. 259, Bixiga)


Expediente: Livros Imperecíveis, a newsletter da casa matinas. Junho, outono de 2026. 19ª edição. Escrito por Matinas Suzuki Jr., editado por Comunica PR, direção de arte por Amanda Piva.


 
 
 

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